Por Guilherme Albagli de Almeida

Ontem, sábado à tarde, ouvi não muito ao longe algazarra, música e estampidos. Não entendi pois o São Jorge fora na véspera e eu não sabia de qualquer outra comemoração auspiciosa. Mais tarde, um amigo passa lá em casa e me fala que o Povo do Pontal, revoltado com a grande demora da construção e da devolução aos contribuintes da sua única praça, havia retirado os tapumes que a fechavam por longo tempo, mesmo depois da delongada obra oferecida por uma construtora de fama.

Ficou mesmo linda, linda, linda, a nova praça. Retiraram todos os paralelepípedos de granito que contornavam os canteiros dos gramados e das árvores, os levaram para longe e, no seu lugar, colocaram tronquetes de eucalipto serrado em meia-cana, todos com a face serrada voltada à terra úmida. Se sabe que a garantia de vida útil do eucalipto tratado não passa dos quinze anos – quando não exposta à acidez e umidade do solo-. Bela obra? Sim, sem dúvida, mas pertencente à categoria da “arte efêmera” – aquela que comporta os fogos de artifício, as representações cênicas, os cenários televisivos ou teatrais que só sobrevivem através da memória de fotografias ou outros registros gráficos-.

Esta tradição de se trocar materiais permanentes, como os granitos, por materiais de vida mais limitada já é conhecida na nossa terra. Em nome de uma renovação não solicitada pelo povo, retiraram os grandes meios-fios de granito  das Praça Ruy Barbosa e, desavergonhadamente, sem qualquer reação dos engenheiros ou arquitetos a serviço da PMI, os substituíram por novos, fininhos, de concreto. Saquearam o material tradicional e precioso e o levaram embora, doados pela PMI. Até uma grande lousa de arenito, trazida no Século XIX da ruína da antiga Matriz de São Jorge, no Outeiro, que ficava exposta na porta da entrada da sacristia da atual Igreja Matriz, foi retirada sem qualquer reação dos órgãos de defesa do nosso Patrimônio Histórico-Cultural.

Pena que não fui curioso o bastante para sair da minha casa e ver o que acontecia a cem metros dali. Se soubesse da origem daquele barulho, não duvido que assistiria de perto esta boa-ação popular. Colé esperar até o 28 de Junho para inaugurar com pompas e solenidades o nosso espaço público? Vão contratar toldos, palanques e microfones e inaugurar outras obras em outras praias pois, se a obra foi da generosa construtora, o espaço territorial é nosso. Muita gente fotografou  a multidão que para ali acorreu poucas horas depois do ato corajoso do nosso povo. Agora, só faltam fiscais para vigilância permanente, como vemos em capitais e pequenas cidades civilizadas mundo afora.  A praça é do povo, não da política.