Seguia o ano de 2006, o Hotel Pousada Terras do Sem Fim crescia bem devagarinho, como uma tartaruga que resolveu fazer ioga. As obras andavam no ritmo do “vai que dá”, porque o dinheiro de hoje pagava o cimento de amanhã. Era aquele clássico brasileiro: vendia o almoço para comprar a janta, e ainda rezava para sobrar umas migalhas para o café da manhã.

O “carro oficial” do hotel era um Fusca valente, já com quase 20 anos de estrada nas costas, mais furado que queijo suíço. O coitado tinha buracos no assoalho tão generosos que o motorista podia contar as faixinhas tracejadas da pista passando rapidinho lá embaixo. A velocidade dele era definida pelo tamanho dos buracos: quanto maior o buraco, mais devagar ele ia, para não virar peneira humana.

E quando chovia? Aí virava comédia pastelão!

Os pneus carecas do Fusca jogavam mais água para dentro do carro do que o céu conseguia derrubar no para-brisa. A solução era digna de herói: sacos plásticos nos pés, óculos de serralheiro no rosto, e um sorriso amarelo no canto da boca. Parecia eu um astronauta pobre indo para uma missão espacial embaixo d’água.

A família tinha vergonha de entrar no Fusca as filhas dispensavam caronas para o colégio. Era de fato uma ferrugem barulhenta.

Mas foi exatamente assim, com Fusca furado, obras de tartaruga e muito improviso, que a Pousada Terras do Sem Fim ia se construindo. Tijolo por tijolo, risada por risada, e com a certeza de que um dia aquele sonho ia parar de ser “quase pronto” e virar realidade.

E olha… até que ficou bonito, hein?

A vida era simples e apertada. Pedreiros, serventes, camareiras e cozinheiras moravam nos seus alojamentos, divididos em dois grupos: os homens de um lado, as mulheres do outro, separados por uma distância que o dono, Seu Leonardo, considerava “de boa moral”.

Os banheiros dos alojamentos ainda não existiam. Lá atrás, no terreno dos fundos do Hotel, foram construídos dois banheiros precários: um para os homens e outro, mais reservado, com uma boa ducha, para as mulheres. O problema foi que bem ao lado do banheiro feminino havia uma mangueira majestosa, alta, frondosa e generosa, que dava sombra e mangas “Hadem” deliciosas.

O que ninguém imaginava era que, de um galho específico, bem no alto, conseguia-se ver tudo que acontecia lá dentro através das frestas do caibro do telhado. Era como um camarote VIP do pecado.

E foi assim que surgiu a lenda da Mangueira do Pecado.

Entre os pedreiros, havia o seu Careca, de 55 anos, velho de guerra, excelente profissional, mestre de obra dos bons, mas com um olho mais vivo que o de um gavião; foi quem criou o HORÁRIO MÁGICO.

Todo Santo dia, pontualmente às 16h30, enquanto as cinco camareiras terminavam o expediente e iam tomar banho, Careca sumia do canteiro de obras. Subia na mangueira com a agilidade de um macaco experiente, acomodava-se no galho estratégico e ficava lá, quietinho, como quem aprecia a natureza.

As meninas chegavam conversando, rindo, tiravam a roupa cheia de sujidades do dia e… bem… tomavam seu merecido banho. Careca, lá de cima, assistia ao espetáculo como se fosse novelas das seis.

Isso durou semanas. Talvez meses. O homem era discreto como um ninja de terceira idade.

Até que um dia…

Era uma tarde como outra qualquer quando um grito cortou o ar:

Tem um homem na mangueira!!! Cabra Safado!

Foi o caos. As cinco camareiras saíram do banheiro enroladas em toalhas, pegando pedras, chinelos, pedaços de madeira — o que encontrassem. Careca, que até então se achava invisível, tentou descer correndo, mas era tarde.

Pega esse desgraçado!

Choveram pedradas. Careca pulava de galho em galho como um macaco bêbado.

Quando finalmente desceu, foi cercado, agarrado por um de seus ajudantes. As meninas, indignadas, fizeram um círculo da vergonha. Arrancaram boa parte da camisa, rasgaram sua calça e, no auge da fúria, uma delas conseguiu puxar um tufo generoso de cabelo e couro cabeludo do pobre coitado.

O homem saiu dali parecendo que tinha brigado com gatos e perdido feio, sem mais delongas desapareceu. Não ficou, achamos todos, para que o assunto não virasse “caso de polícia”.

No dia seguinte, o clima no hotel estava insuportável. Ninguém trabalhou direito, todos os homens viraram suspeitos. As mulheres olhavam torto até para o Seu Leonardo. Não tinha jeito, o caso delongou semanas de aflição e daí para frente as mulheres, em sistema rodízio, passaram a fazer plantão no pé de manga enquanto as demais tomavam banho

Para restaurar a paz, Seu Leonardo tomou a decisão mais dolorosa: mandou derrubar a mangueira. Aquela árvore linda, que dava sombra e mangas tão doces, que caiu com estrondo.

Como diz o ditado: vão-se os anéis, ficam os dedos.

Careca nunca mais apareceu no serviço. Perdeu o emprego, a moral e, pelo que contaram, um bom pedaço do couro cabeludo. O hotel seguiu em frente, a obra continuou, mas até hoje, quando alguém conta essa história, as camareiras mais antigas ainda riem:

Aquele dia, sim, foi o banho mais caro da história do Terras do Sem Fim.

Leonardo Garcia Diniz
Hotel Pousada Terras do Sem Fim.