WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia


julho 2026
D S T Q Q S S
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031  






:: 23/jul/2026 . 17:40

DECOLORES – FIGURAS DA NOSSA TERRA

Capítulo 1 — O Profeta

Personagens reais que ajudaram a construir a memória afetiva de Ilhéus

Dizem que recusou uma vida de regalias para viver na simplicidade, encontrando na própria solitude o conforto que muitos jamais encontrariam em palácios. Preferiu a reclusão voluntária, como os antigos eremitas, fazendo do silêncio a sua companhia, da liberdade o seu patrimônio e da contemplação uma filosofia de vida. Talvez por isso ninguém jamais tenha conseguido explicar quem realmente foi Seu Luís. Em uma cidade onde realidade e ficção caminham de mãos dadas desde Jorge Amado, ele deixou de ser apenas um homem para transformar-se em lenda.

Toda cidade possui ruas, praças, monumentos e prédios históricos. Mas apenas algumas são capazes de transformar pessoas comuns em personagens eternos. Ilhéus sempre foi assim. Antes mesmo de Jorge Amado imortalizar seus coronéis, prostitutas, pescadores e sonhadores, a cidade já colecionava figuras que pareciam ter escapado das páginas de um romance. Homens e mulheres que nunca ocuparam cargos públicos, jamais receberam homenagens oficiais, mas conquistaram aquilo que poucos alcançam: permanecer vivos na memória de um povo.

Entre todos eles, talvez nenhum tenha sido tão misterioso quanto aquele homem que caminhava lentamente pelas ruas do centro com um cajado nas mãos, longas madeixas lembrando um rastafári, barba branca dividida ao meio, óculos cuidadosamente remendados com fita adesiva e vestes que recordavam os antigos franciscanos. Seu semblante misturava serenidade e distância, como se enxergasse um mundo invisível aos olhos da maioria. Chamava-se Luís. Mas para Ilhéus ele nunca precisou de sobrenome. Bastava dizer: “Lá vai o Profeta.”

Quem estudou nas imediações do Ginásio de Esportes Herval Soledade entre as décadas de 1980, 1990 e o início dos anos 2000 certamente cruzou com ele inúmeras vezes. Eu fui um desses estudantes. Passei pela Escola Municipal Heitor Dias, pela Escola Perpétua Marques, pela Cruzada do Bem e pelo Instituto Municipal de Ensino. Em todas essas escolas havia uma certeza silenciosa: em algum momento do dia encontraríamos aquela figura caminhando calmamente pelas ruas ou recolhida em seu pequeno abrigo.

Seu lar não era exatamente um barraco.

Era um pequeno refúgio improvisado, discretamente escondido sob a escadaria lateral do Ginásio Herval Soledade. Tão discreto que muitos atravessavam diariamente aquele espaço sem imaginar que ali vivia alguém. Talvez justamente por isso tenha permanecido tantos anos naquele lugar. Nunca incomodava ninguém. Não pedia esmolas. Não fazia algazarra. Parecia existir um acordo invisível entre a cidade e aquele homem que havia decidido viver às margens do mundo sem jamais abandonar Ilhéus.

As crianças, naturalmente inquietas, nem sempre compreendiam aquele silêncio. Corriam atrás dele, gritavam “Beato Salu!”, repetindo uma expressão popular da época, jogavam pequenas pedras e faziam travessuras próprias da infância. Ele raramente respondia com irritação. Na maioria das vezes limitava-se a seguir seu caminho, protegido por uma serenidade que parecia impossível de ser abalada. Quando respondia, quase sempre era através de frases que mais pareciam provérbios.

Eram justamente essas palavras que alimentavam o mito.

Contavam que falava iorubá com impressionante naturalidade. Outros garantiam que dominava filosofia e teologia como poucos professores universitários. Havia quem jurasse que conhecia profundamente as Escrituras Sagradas e discutia religião com sacerdotes, pastores e estudiosos. Ninguém sabia exatamente onde aprendera tanto. Também ninguém sabia ao certo se tudo aquilo era verdade. Mas, em Ilhéus, algumas histórias jamais precisaram de provas para continuarem vivas.

O ilheense Anacleto Barreto, que conviveu com Seu Luís durante muitos anos, preserva algumas lembranças preciosas daquele convívio. Quando alguém lhe desejava bom dia, respondia com humildade desconcertante: :: LEIA MAIS »





















WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia