UMAS E OUTRAS INUSITADAS DA CIDADE (XXIII)
(NOTAS DE BELMONTE – ‘BEBEL’ PARA OS MAIS CHEGADOS)
Procurando algo um tanto inabitual para sequenciar esta série, mergulhei no passado e trouxe à tona Manoel Mendes Bandeira, ou simplesmente Salvinho Bandeira como era conhecido na cidade, ou ainda Seu Salvinho, como os mais novos o reverenciavam, um aficionado pelo Integralismo, movimento que se inseriu na história política de Bebel através da Ação Integralista Brasileira –AIB.
O prestígio e a alcunha lhe renderam o mimo da charada “Na cozinha tem tempero; na sala de visita, vinho, e no mastro, o símbolo da pátria. Duas e uma”. Oriundo de Santo Amaro da Purificação onde nasceu, Seu Salvinho chegou a Belmonte (já não está neste plano) no início do século XX em tenra idade juntamente com os irmãos João, Godofredo, Francisco, Pedro e Adolfo (este aportara em Canavieiras); todos constituíram famílias e deixaram inúmeros descendentes. A título de curiosidade tem-se que o visconde Francisco Ferreira Bandeira, seu pai, era dono de escravos e, verdade ou não, teve 116 filhos.
Com o tempo já um belmontense por adoção, tornou-se fazendeiro de cacau no Jequitinhonha, delegado, agente do antigo Instituto de aposentadoria dos comerciários, vereador e foi, por ser um ferrenho partidário do integralismo, preso algumas vezes por divergências políticas. Contraiu matrimônio com dona Romana Antônio Sampaio e, ao nomear Plinio e Pliniana, dois dos 14 filhos da prole, em homenagem ao escritor e jornalista Plinio Salgado, mentor principal da Ação Integralista no país, evidenciava toda a paixão por esta organização. Lembrando: “As Plinianas” era como se chamava a ala jovem feminina integralista. O fato dos filhos, no momento de se recolherem para dormir serem obrigados a cantar o “Avante! ”, hino integralista, e, em seguida, o Hino Nacional brasileiro, se converte em outra prova desse apaixonamento. Mas como todo ser humano, Seu Salvinho possuía lá suas arestas e, tido como levado da breca, não titubeou –numa época de sociedade “careta”, tradicionalista– em se relacionar com a cunhada Donatilha Sampaio (conhecida como dona Didi), gerando daí um casal de herdeiros.
Como a flama se dividia com o futebol, presidiu a Liga belmontense deste esporte e o Belmonte (homônimo da cidade), clube do coração e ardoroso torcedor e que lhe fomentaria mais um caso fora de série na sua trajetória de vida. Ocorreu que em 23/08/1953, num clássico da cidade, este time abateu o seu rival América por 3 a 1 sagrando-se campeão e, como um filho havia nascido neste dia, olha só o que o homem fez! Registrou-o como Belmonte, nascendo assim o cidadão Manoel Belmonte Sampaio Bandeira, hoje morador da capital paulista. Os de convivência mais amiúde com ele afirmavam que a entusiástica torcida tinha tudo a ver com o verde predominante da camisa desta agremiação, combinando com a da do uniforme (usavam gorro também verde) dos integralistas, que em razão disso eram chamados de “camisas-verdes”.
Na minha infância em Bebel, por vezes as constantes conversas ouvidas, mesmo sem interesse e sem entender bulhufas, me impuseram gravar na memória o “Deus, Pátria e Família”, e o “Anauê”, respectivos lema e saudação do integralismo. De ideias controversas esta doutrina preconizava, entre outros aspectos ser tão contrário ao Comunismo, como ao Capitalismo. A implantada no Brasil fundamentou-se de algum modo no fascismo italiano e no nazismo alemão, num tempo em que se difundia na Europa os ditames que a riqueza de uma nação e o bem-estar de um povo requeriam um Estado dotado de extremados poderes. O nacionalismo foi a filosofia mais abraçada pelos segmentos brasileiros, mas em vários traços se diferenciaram dos das origens como a forte ligação com a Igreja Católica, e como o de não aceitar, na maioria deles, o antissemitismo. Por falar em nacionalismo e o relacionarmos com o atual cenário político-social-econômico brasileiro em que se tem no governo republicano dois poderes –Executivo e Congresso Nacional– desacreditados, uma parte da grande mídia fazendo política, uma Justiça forçando tirar a venda de um dos seus simbólicos olhos, e o Exército a atuar fora de suas funções, o relacionamento nos faz crer resultar numa diminuição acentuada do sentimento de brasilidade.
Em tempo: Este XXIII escrito contou com a boa vontade do amigo conterrâneo Sálvio Bandeira, filho do aludido integralista, ratificando e complementando informações pelo telefone.
Heckel Januário
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