BARRAKITIKA, TEMPLO DO ABSURDO
por Juventino Ribeiro
Havia um barzinho na rua em que eu morava, no Rio de Janeiro, do qual eu era contador. Os sócios desentenderam-se e o transferiram para mim como pagamento de uma dívida. Passaram-se cinco longos meses para eu trespassar o estabelecimento e recuperar meu dinheiro.
Trabalhava para uma seguradora durante o dia, mas à noite me desfazia do paletó e da gravata, arregaçava as mangas e assumia o controle. Foi nesse período que passei a conhecer os clientes do outro lado do balcão.
Um deles, Valtinho da Ladeira, tinha cerca de 50 anos e suas atividades eram nos meandros da contravenção, no jogo do bicho. Era simpático e admirado por todos. Pertencia à ala de compositores da Escola de Samba Unidos da Tijuca.
Compenetrado, metódico e com seu inseparável cachimbo à Sherlock Holmes, chegava diariamente por volta de 19 horas. Bebia duas doses de cachaça Pitu, pagava, acendia o cachimbo e ia para casa jantar e compor.
Certa vez apresentou a composição, Botequim, Templo do Absurdo – Bar Brasil, para concorrer como samba enredo de sua escola. Descrevia as ocorrências no ambiente dos botecos, os personagens, suas filosofias, suas gozações. Todos são técnicos e escalam a seleção. E o refrão pedia: seu garçom pendura a conta que o AIDS vem aí.
Interpelei: Valtinho, não seria melhor dizer a AIDS vem aí? Não, nesse contexto, AIDS significa Alto Índice de Defasagem Salarial. Coisa do mundo do samba.
Não foi finalista, mas no ano seguinte consorciou-se com meia dúzia de compositores e levou o primeiro lugar. Poxa, Valtinho, a parte do prêmio que lhe coube não dá nem para uma garrafa de Pitu. Era a gozação que rolava no bar.
Alguns botecos são a cara do dono. Outros, a cara do cliente. No Rio de Janeiro, o bar Garota de Ipanema sempre foi a cara de Vinicius de Moraes e Tom Jobim; O B… de Fora, no Baixo Gávea, a cara de Leila Diniz. Era tão pequeno que o freguês subia um degrau para ser atendido e ficava com o trazeiro do lado de fora. Foi por isso que Leila, fantasticamente debochada, o batizou de Bunda de Fora. Era um point de estudantes, jornalistas, artistas e intelectuais.
O Petisco da Vila, em Vila Isabel, era onde por muitas vezes vi Martinho da Vila bebendo sozinho, compenetrado, rabiscando letras de canções, cantarolando e batucando numa caixa de fósforos. Ninguém o perturbava. O Petisco era sua cara.
Barrakitika, localizado no Centro Histórico e Cultural de Ilhéus, é onde todo mundo se encontra. Este é o apelo de seu marketing. Sua história tem início na década de 80. Era apenas uma barraquinha na praia da Avenida Soares Lopes, sem sofisticação, onde o casal Brunek Susmaga e Marisa Lindote, recebia os amigos com muita simpatia.
Era o point onde os jovens se encontravam na efervescência dos inesquecíveis verões de Ilhéus. Era muito rudimentar e sem infraestrutura para suportar os picos de atendimento. Por isso, os frequentadores, carinhosamente, apelidaram-na de Barraca Raquítica.
Então, o mais querido Bruno de Ilhéus resolveu que já era tempo de procurar um espaço onde melhor poderia atender a seus queridos amigos. A barraca raquítica ganhou novo endereço e virou Barrakitika, uma alusão ao antigo nome. Barrakitika é sua cara.
Ali, a azaração rola solta. O público é variado, descontraído e belo, como o cardápio da casa. É onde se bebem boas cervejas, bons vinhos e drinks. Acredita-se que seja onde se encontra a maior variedade de boas marcas de cachaças.
É onde se come uma picanha na chapa, que faz muito bem aos olhos, ao olfato e ao paladar. É servida com fritas, com aipim ou com legumes. Suculenta feijoada, moqueca, camarão, boas massas e petiscos variados completam o belo cardápio.
Para satisfazer aos apreciadores da comida japonesa, Bruno fez parceria com Fábio Cosaihira, competente sushiman, para implementar o Sushi Bar da Barrakitika. É um agradável ambiente onde se podem apreciar as criativas especialidades ao som de boa música ou assistir a partidas de futebol ou a lutas de MMA e outras atrações.
Barrakitika funciona de segunda feira a sábado, de 11:00h até de madrugada, quando sair o último freguês. Algumas noites costumam ser animadas com música ao vivo. O Sushi Bar funciona somente a partir de 19:00h. Obtenha mais informações pelo telefone 73-32318300. Bom apetite e feliz entretenimento!
*Juventino Ribeiro é contador em Ilhéus-BA





















































Muito boa, Juventino, essa “biografia” do melhor bar de Ilhéus, cujo proprietário faz questão de cumprimentar e servir bem cada um dos seus clientes, raridade por aqui. Antes de ler, me assustei com o título (não associei ao samba enredo), mas foi só um susto.
Quem frequenta os templos do absurdo, geralmente não estranham. O Bar do Pitoco será o próximo…