por Tomé Pacheco

NO PRESÍDIO DO CARANDIRU VII

Tomé Pacheco

Tomé Pacheco

Aqui eu continuo as histórias vividas na Penitenciária Masculina do Estado de São Paulo. Além da de Diretor de Esportes e Recreação passei a exercer a função de Relações Públicas. Todo sábado eu agitava a cadeia com eventos como já citei anteriormente sobre os grandes clubes de futebol, os grandes times da várzea, as grandes Escolas de Samba como a Vai-Vai, Camisa Verde e Branco, a Nenê de Vila Maltildes, Rosa de Ouro. Artistas como Raul Gil, cantores como Bezerra da Silva e o Boca Nervosa (que eram os preferido deles) estavam sempre presentes. A malandragem dentro da Penitenciária vibrava. Quando eu encontrava com alguns deles na rua me idolatravam. Chamavam-me para tomar uísque, jantar etc.: “Vamos chefia, o senhor aliviou muito nossa cadeia com aqueles shows”. Até relógios, dinheiro, eles queriam me dar pelo agradecimento. Eu respondia: “Rapaz, não quero nada seu. Ali eu estava cumprindo minha função.”. Mas insistiam: “O senhor merece!”. Por vezes alguns falavam: “Ô chefia, estou cheio da grana. Fiz uma boa ontem, portanto, vem comigo”. Eu dizia “Vai com Deus, boa sorte”, e caia fora.

O regime na Penitenciária era rígido e totalmente diferente do da Detenção. A população era de 1200 presos e selas individualizadas. De segunda a sexta o lazer era nos pátios; no campo só dia de sábado.

Uma vez eu estava na quadra do Pavilhão 1 quando de repente vem o Ceará (o que correu atrás de mim com uma faca na detenção) em minha direção, então eu parei meio entregue e fiquei esperando o pior. Eu tremia mais do que vara verde e comecei a suar frio e entregar a alma a Deus. Quando o Ceará se aproximou mais de mim tive uma grande surpresa: o elemento levantou os dois braços e fez a maior festa como se eu fosse o maior amigo dele. Daí então ele gritou “Seu Tomé, que bom o senhor está aqui comigo”. Eu respirei fundo e me recompus. Ele continuou: “Seu Tomé, agora o senhor é meu amigo porque só é meu amigo quem não tem ‘treita’ comigo e o senhor não teve”. E continuou: “Se eu encontrar o senhor na rua nós vamos tomar duas garrafas de uísque”. Eu enchi o peito e disse-lhe: “Se na rua eu for por uma calçada caia fora da minha frente, senão eu te derrubo na bala, porque não tenho amigo malandro”. Ele insistiu, mas como eu tinha tomado conta da situação, caí fora do local. Ceará era um bandido perigoso. Frequentava o Parque D. Pedro no centro de São Paulo. Andava com uma capa preta para esconder por baixo duas peixeiras. Tinha a mania de passar por uma pessoa e dar “boa noite” e quando a pessoa não dava resposta, ele voltava e metia a facada na vítima. O cara era um verdadeiro psicopata.

Outra vez foi o Hosmani Ramos, médico cirurgião plástico que resolveu partir para o lado do crime. Ele tomava banho de sol sozinho e escoltado no pátio do Hospital Penitenciário. Como eu trabalhava na farmácia que dava para o pátio, varias vezes papeamos durante seu banho de sol. Ele costumava contar suas aventuras amorosas com mulheres e falava também das cirurgias que fazia. Até então nunca havia me pedido nada. Certo dia mandou um recado por um antigo preso chamado Dito que trabalhava na faxina. Veja então como o Hosmani foi um tremendo cabeça. Ele em vez de falar comigo pessoalmente mandou um recado. Talvez tenha sido porque eu nunca tenha dado abertura para esse tipo de papo. O Dito chegou pra mim e disse: “Tomé, o Hosmani mandou falar pra você se dar para ir até a casa dele buscar uma arma que esta desmontada. Se der, você vai trazer de peça em peça até completar. Ele disse também se você aceitar, que vai lhe dar um cheque assinado e você preencherá quando quiser”. Viu aí que proposta indecente, mas descabida? Rapaz, naquele momento eu me achei um lixo, um fora da lei.  Mas dei ao troco respondendo ao Dito: “Fale pra ele que esse cheque não serve nem para limpar meu rabo e que de hoje em diante ele não olhe nem mais minha cara”. O Hosmani já tinha tentado 14 fugas, mas todas frustradas. E veja só: queria interar a 15ª com meu apoio. Vê se podia isso!?

Contarei duas tentativas. A primeira foi no Pavilhão 2 logo após sua chegada na Penitenciária. Ele cerrou a grade da janela do 3ª andar, fez uma “Tereza” e tentou descer por ela. Desacertou porque a “Tereza” rebentou e o cara se esbagaçou no chão, quebrando perna, braço, clavícula, fêmur etc. Com isso o diretor, apesar do elemento ficar todo lascado, mas ciente de sua periculosidade, mandou construir uma cela com trilhos de trem e 3 cadeados dos grandes e reforçados e com vigilância 24 horas por dia no Hospital da Penitenciária. A outra tentativa se deu na troca de plantão que é feita às 7 horas da manhã, aproveitando o grande movimento na portaria. Então um cara tirando uma de advogado adentrou a portaria e entregou pra ele uma mala “Zero –Zero 7” com uma pistola em seu interior. Hormani já havia passado por vários portões. Quando chegou ao último, já para sair pra rua, desacertou. Quem trabalhava nele era o Dito, aquele do recado, e um preto velho com mais de 20 anos naquela função, e tarimbado que só ele. Aí então o Dito olhou par o Hosmani e perguntou: “O senhor vai deixar algum documento na portaria?”. Nesse instante Hosmani ficou nervoso, e seu Dito, experiente, aproveitou para tirar a chave do portão. Hosmani então abriu a “Zero- Zero 7” e sacou da pistola, mas foi dominado por vários colegas agentes; mesmo assim o cara ainda consegui fazer um disparo.

Até aquele momento ninguém sabia quem era aquele elemento, ao ser dominado veio a ser identificado. Devido ao fato de ele ser médico, o danado injetou certo medicamento no rosto e ficou tão deformado que quase ninguém o reconhecia.

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