Por Guilherme Albagli

No Panteão da Cultura Baiana, junto a Vieira, Soares, Gregório, Castro Alves, Ruy e Amado está Carybé, o “maior dos artistas-plásticos baianos, nascido na Argentina”.

Murais de Carybé nos Estados Unidos. Foto: Internet.

Murais de Carybé nos Estados Unidos. Foto: Internet.

Hoje à tarde, na Academia de Letras de Ilhéus, às 17h, Solange Colina, filha de Carybé e Nancy, dará uma palestra sobre a obra do seu pai, nascido Hector Barnabó, que passou ao Brasil ainda menino, onde aprendeu português sem sotaque. Adotou a Bahia como pátria, mantendo longa amizade com o Jorge e ilustrando alguns dos seus livros.

Estive com este gênio baiano umas três ou quatro vezes, na vida. A primeira foi na rampa do Mercado Modelo, quando o encontrei e perguntei se recebera um envelope que lhe mandara pelo correio com um pequeno lote de xilogravuras que eu produzira recentemente.

-Sim, recebí. Vou sair agora para o fim de semana; passe lá em casa na segunda que lhe retribuirei o seu presente.

Na segunda, pela manhã, antes mesmo dele chegar da sua casa de praia, lá estava eu na sua casa do Matatú à sua espera, muito bem atendido pela sua jovem empregada ilheense. Saltou do carro, tirou deste umas sacolas e duas telas pequenas, a óleo, que pintara no fim-de-semana, subindo ao seu atelier, no fundo da casa. Desceu com uma pintura com tinta-da-China sobre papel que me doou, isso no ano de 1975. Por medo da umidade do litoral baiano, que destrói facilmente papéis, doei depois esta obra ao acervo de um certo museu do exterior onde a sua obra está melhor preservada. Era uma sereia singela, resolvida com apenas cinco golpes certeiros do seu grosso pincel oriental.

Outra vez, o encontrei na Casa Branca, na Vasco da Gama, num dia de grande festa em que Pierre Verger estava também presente. Me aproximei do Carybé, com a sua camisa estampada, meio desabotoada e deixando à mostra o seu colar de turquesas e algumas pedras de coral que, segundo ele, lhe fora doado pela finada Mãe Senhora. Não quietei enquanto não consegui comprar um colar parecido para mim, que uso até hoje. Com os demais ogãs daquela Casa-de-Santo, bebia aquela bebida branquinha que passarinho não bebe e, apesar da sua pele branca, não destoava em nada dos seus companheiros afro-descendentes.

Outra vez, o encontrei numa tarde de autógrafos na Civilização Brasileira do Iguatemi. Quando eu saía da apinhada livraria, quem ali entrava era o Jorge e sua esposa, a quem cumprimentei com admiração.

Quando criaram o atualmente desativado Museu do Cacau, o encomendaram uma grande tela representando uma fazenda de cacau – hoje empacotada nos escombros daquele museu, hoje tutelado pela UESC-. Preocupado com um possível sumiço desta valiosa obra, há uns dez anos, mandei um documento à Universidade Estadual de Santa Cruz recomendando a sua remoção ao Gabinete da Reitoria por questões de segurança. Infelizmente, na época, o meu poder de persuasão não fora suficiente par convencer à reitora então em exercício – muito, muito, muito correta -, que achou, talvez, indevida, aquela minha sugestão.

Depois da palestra, hoje à tarde, no auditório decorado com arranjos de flores tropicais montados e doados por Sarinha Almeida, será aberta a expo Carybé 100×100, com um coquetel, no TMI. Quem for à sua abertura, certamente, terá que ali retornar para ver, com mais calma e menos muvuca, uma parte da grande obra deste imortal.

Sua obra prima é o conjunto de talhas em cedro “Orixás”, encomendado pelo extinto Banco econômico, hoje exposta no Museu Afro do Terreiro de Jesus. Vale uma ida a Salvador, só para apreciar esta obra.