Heckel Januário em: FACÇÕES POLÍTICAS EM BELIGERÂNCIA
O que se viu –no olhar deste eleitor aqui desiludido de muito com os partidos políticos brasileiros– na sessão da Comissão de Impeachment que teve como tema a apresentação de seu relatório, pode ser comparado a um tumulto entre torcidas de futebol.
Portando cartazes, bonecos e a bradarem palavras de ordem entre outras impronunciáveis, prós e contras o processo impeditivo longe de se comportarem como membros de um Poder Legislativo num momento crucial para o futuro de um país, pareciam mais torcedores exaltados num estádio em dia de jogo. Ali cada deputado demonstrando ter deixado ao léu o necessário desarme de espírito, fundamental na concatenação do fato imputável e da prova, e assim conscientemente admitir ou não crime de responsabilidade à Presidente da República, não, ao invés disso agia como na turba age um partidário de um clube.
Meio a chacotas, bate-bocas e impropérios no antes, no durante e no depois da exposição, uma vez ou outra alguma voz solitária de ambos os lados surgia na tentativa de dignificar o ambiente, porém, de prima rechaçada, a volta à “normalidade” tinha curso. No fim o relatório aprovava a admissibilidade do afastamento da Presidente, aliás, aprovação –de acordo insinuações advindas das televisões– já esperada.
Como o resultado desse instante histórico e singular da vida política brasileira não fez estancar, como visto, o burburinho formado desde início, aberrações outras abundaram o recinto como a de um parlamentar dizer que votaria pelo impeachment porque ele não estava precisando de cargos, postos estes, para barra-lo, oferecidos aos montes –pelo governo– ao seu partido. O hilário da resposta para não dizer triste, ao repórter é o referido deputado, um careta conhecido de outros carnavais, insinuar ignorar o “toma lá dá cá”, item fundamental da regra do jogo da política brasileira. É isso. Jamais haverá a possibilidade de um supremo mandatário desta nação governar tranquilamente (com seu projeto de governo se existir) enquanto o vigente sistema político, fomentador dessas barganhas imorais, não for jogado na lata de lixo, e se institua outro dignificante.
Não que uma fotozinha de si mesmo ou mesma seja algo indecente, censurável, ou se enquadre na falta de decoro, mas o procedimento de alguns parlamentares a desfilar –após o voto do relator– diante dos holofotes fazendo com o sorriso escancarado o modernismo “selfie” (só faltou o “pau de selfie” para completar a representação), como se estivessem numa excursão turística, sugere ao votante não caído na onda da paixão, no mínimo entender como despreocupação ou descompromisso com a realidade do país.
Qualquer desfecho da Comissão, proposto pelo seu presidente para esta segunda e para sexta-feira deste final de semana, provocará um acirramento ainda maior entre duas forças políticas, com igual reflexo na sociedade. Ademais, se as ‘delações premiadas’ a jogarem, com rapidez impressionante, “merda no ventilador” como se diz, e a Lava Jato não destoar da isonomia, aumentando a pressão nos já arranhados figurões políticos da República Brasileira e a alcançar outros e outros supostamente imaculados, o andar da carruagem sinaliza que o comando da nação –a resultar em poucos ilesos até para posteriores candidaturas–poderá cair, como manda a lei, nas mãos do Presidente do Supremo Tribunal Federal. A não ser que um ato de grandeza saído do nosso escassíssimo quadro de políticos estadistas propondo algum acordo civilizado, venha a ser acolhido por essas facções políticas em beligerância.
Heckel Januário




















































