“Dulcius ex asperis” – Mais doce após as dificuldades.

(Lema familiar: Lema do clã escocês Fergusson)

Na tradição maçônica, o Doce e o Amargo transcendem os simples sabores da existência material. Eles se erguem como poderosos emblemas da dualidade que rege o Universo e o caminho do iniciado.

Assim como o pavimento mosaico, pisos negros e brancos do Templo, eles nos recordam que a Luz só se revela plenamente quando confrontada com a sombra. E que a verdadeira harmonia nasce precisamente da tensão criadora entre os opostos.

O Doce representa a fraternidade autêntica, o conhecimento iluminado e a harmonia serena entre as colunas Jachin e Boaz que guardam o portal do Templo; é o mel da sabedoria que se oferece após longas vigílias de estudo e reflexão; simboliza o júbilo tranquilo da irmandade, o prazer sutil da virtude praticada em silêncio e a recompensa interior que surge enquanto o Aprendiz poli sua Pedra Bruta e o Companheiro trabalha para elevar os pilares do caráter.

É o aroma suave que emana do Jardim das Virtudes, é a cadeia de união harmoniosa dos irmãos ao redor do Altar e o calor da Luz que envolve o Mestre ao contemplar a Grande Obra realizada.

No entanto, sem o Amargo, o Doce perderia todo o seu significado e profundidade.

O Amargo é o cálice das provações. É a angústia das trevas interiores que todo iniciado deve atravessar. Representa o fel da humildade nascida das quedas, a dor do desprendimento dos vícios e ilusões e a amargura do ego que precisa morrer para que o homem novo renasça.

É o eco vivo do drama de Hiram Abiff: a traição, o sofrimento e o sacrifício necessários para que a verdade ressurja. São as noites escuras da alma, as lágrimas derramadas no silêncio do coração e as adversidades da vida que atuam como malho e cinzel sobre a pedra bruta.

O maçom autêntico aprende a saborear ambos com equanimidade, sem apego e sem repulsa. No ritual, ele bebe do cálice da vida plenamente consciente de que o doce da realização só adquire sabor verdadeiro após ter atravessado o amargo da disciplina, do silêncio e da renúncia e, para além, das batalhas internas dos Templos.

A dualidade não é uma guerra eterna, mas um equilíbrio dinâmico. Não se busca destruir um polo para exaltar o outro, e sim integrá-los na consciência superior. O iniciado não foge do amargo, tampouco se embriaga no doce. Ele os percebe ser as duas faces de uma mesma realidade divina.

Essa tensão criadora impulsiona a Grande Obra. Entre o Doce e o Amargo constrói-se o Templo interior. O Aprendiz sente o amargo da ignorância. O Companheiro experimenta o doce da descoberta. E o Mestre alcança a síntese madura, onde os extremos se reconciliam e ele se veste, por fim, atingindo a maioridade, de humildade.

Na estreita senda do meio, o irmão avança, guiado pelo compasso que regula os desejos e pelo esquadro que retifica as ações.

Assim, o Doce e o Amargo se fundem na taça do Mestre. Quem os traga com serenidade, busca a sabedoria no simbólico, percorre o caminho da perfeição, erguendo, tijolo a tijolo, o Templo da Humanidade, lugar onde a dualidade se dissolve na Unidade primordial, a fraternidade.

Este entendimento é ínfima parcela do complexo “SEGREDO MAÇÔNICO”: a aceitação consciente de que nos opostos reside o poder de transcendê-los. É exatamente no ponto de equilíbrio entre o mel e o fel que o homem se torna verdadeiramente Livre, Iluminado e Imortal.

As experiencias da vida profana somadas do percorrer, subir, os 33 graus da Escada de Jacó, da Arte Real, ensinam ao maçom como viajar, ligar-se, saltar da linearidade terrena para a profundidade espiritual, que revelada em seu interior, a complexa dimensão tridimensional dos Augustos Mistérios, a serem transmitidos, por dever, aos Aprendizes.

Assim, o Doce e o Amargo se fundem na taça do Mestre. Quem possui ouvidos para ouvir, que ouça.

Leonardo Garcia Diniz

MM – CT – Grau 33 – AMALCARG (Cad.31 Elias Ocké)

MM – ARLS AMPARO E UNIÃO 260 – ILHÉUS – BAHIA.