VAI UMA ERVINHA AI?
Era uma noite quente pra caramba em Ilhéus. O Coronel Roberto Mendes e sua esposa Fernanda, gaúchos raiz, ele oficial do Exército e ela filha de Almirante, se hospedaram aqui no hotel, já de tardezinha, depois de um dia cansativo de viagem.
Foram encaminhados a sua unidade habitacional, apartamento, e parecia que devido ao cansaço da viagem tinham logo ido dormir.
Por volta da meia-noite, a distinta senhora Fernanda desceu até a recepção, robe de seda, cara de quem perdeu a guerra, e chamou o recepcionista no canto do balcão:
— Meu filho… você não teria uma ervinha pra me arrumar? Só um pouquinho… não consigo dormir sem essa maldita erva.
O rapaz quase engoliu a própria língua. Recusou. Ela subiu. Desceu. Tomou banho. Subiu. Desceu de novo. Ofereceu 100 reais. Depois 200. Às quatro da manhã, já sem vergonha alguma e com os olhos vermelhos de insônia, ela bateu no balcão:
— Trezentos reais, rapaz! Trezentos reais por uma cuia só, pelo amor de Deus!
Foi aí que o recepcionista, suando frio e vendo o desespero da madame, teve um estalo:
— Rapaz… meu primo nego é do ramo.
Ele pegou o celular que escondido e mandou mensagem pro primo:
“Vem correndo. Tem uma cliente aqui oferecendo 300 contos por um cigarrão bem carregado. Traz um dos grandões!”
O primo, que não era de perder negócio, respondeu em dois segundos: “Tô indo”.
Enquanto isso, Fernanda, depois de tanto zanzar, finalmente apagou lá pelas seis da manhã, exausta e sem saber que o recepcionista havia conseguido encomendar o baseado.
Às sete em ponto, como bom militar, o Coronel Roberto desceu impecável, bigode alinhado, pronto pro café da manhã. Sentou-se sozinho no salão, pois a esposa “ficou zanzando a noite inteira”, segundo ele mesmo comentou com a garçonete.
Neste exato momento para uma moto na recepção e um negão mal encarado desceu procurando por uma tal de Dona Fernanda e que tinha uma encomenda para ela.
O recepcionista noturno já havia largado o serviço as 6 da manhã e não mais estava no Hotel.
O recepcionista diurno mandou chamar a garçonete do salão de café da manhã e lhe pede que solicite ao Coronel para dar um pulo na recepção, o coronel que marido de dona Fernanda, pois que tinha chegado uma encomenda para Dona Fernanda; que ele se dirigisse a recepção para receber e pagar o motoqueiro.
O Coronel, no meio do café da manhã, ainda comendo um cachorro-quente, pediu a garçonete que por gentileza lhe trouxesse a encomenda.
Assim a garçonete o fez, foi até ao motociclista que lhe informou ser ele o portador de uma encomenda feita pela Sra Fernanda, intermediada pelo primo que recepcionista noturno, pedindo-lhe que agisse com discrição pois se tratava de um baseado, a garçonete apavorada com o assunto, pega o pacotinho com terror no rosto e se aproxima sorrateiramente do coronel, olhando pros lados como se fosse um agente secreto de filme de 007, e enfia, por de trás da mesa, discretamente, o saquinho com a maconha na mão do Coronel.
— Coronel… aqui está a encomenda da sua senhora. São os trezentos reais que ela ofereceu e devem ser pagos ao motoqueiro.
O Coronel pegou o saquinho, olhou para dentro… e viu um cigarro de maconha enorme, bem gordo, enrolado com capricho, cheirando forte o suficiente para acordar um morto.
O homem ficou paralisado, olhos esbugalhados, cara de quem viu o fim do mundo:
— Mas que porra é essa?!
A garçonete, apavorada com o berro do Coronel gaguejou:
— É o que a senhora sua esposa pediu a noite inteira, né? Erva… muita erva, um cigarrão dos grande…
O Coronel, ainda segurando o baseado como se fosse uma granada prestes a explodir, explodiu numa risada nervosa e falou bem alto, sem conseguir se conter:
— Meu Deus do céu, moça! A “erva” que minha mulher queria era erva-mate! Erva-mate gaúcha! Pra tomar na cuia com água quente! Ela é chimangueira doente, não maconheira!
A garçonete estava lívida, branco, depois ficou vermelha, depois verde. Parecia que ia desmaiar.
Imediatamente o recepcionista diurno ligou para o seu amigo, recepcionista da noite, para lhe contar a confusão que arranjada por ele, e respondeu de pronto ao seu interlocutor: você tá me dizendo que eu acordei meu primo às cinco da manhã, mandei ele atravessar a cidade, pra trazer um baseado… por causa de chimarrão?! PUTZ!
O Coronel, ainda segurando o baseado na mão, olhou pro saquinho, olhou pra garçonete, e só conseguiu dizer:
— Leva isso embora antes que alguém veja, pelo amor de Deus! E me mande trazer uma erva mate decente que eu pago os trezentos reais, mas pelo amor da Pátria, nunca mais faça favor pra nenhum gaúcho desesperado de madrugada!
Até hoje o recepcionista jura que nunca mais atendeu pedido de “ervinha” de cliente sulista. E o primo do recepcionista até hoje, que só recebeu os R$300,00 cobra do primo a corrida do mototáxi, que era por fora.
Leonardo Garcia Diniz
Hotel Pousada Terras do Sem Fim – Ilhéus (BA)




























































