Nas curvas de um asfalto que não chega ao morro, 

Ilhéus finge não ouvir socorro.

O cartão-postal esconde o esgoto que escorre, 

E na beira do mangue,a dignidade morre.

O Vilela chora em rimas de lama viva, 

Enquanto a Zona Sul cada vez mais linda e chamativa, 

Erguendo prédios de frente ao mar,para que assim o rico não veja ao fundo o pobre sangrar.

Um trono de terno, de costas pro cais, 

Que vive de herança dos velhos coronéis locais.

O Capitão de Areia que hoje rege a cidade

Caminha sorrindo, vendendo vaidade, 

Promete o progresso na rádio e na praça, 

Enquanto a cultura desaba na traça.

A Casa de Jorge, trancada, poeira…

É o espelho da alma da nossa ribeira.

O artista sem verba, cansado da mesa,

Implora o direito que virou incerteza.

Prenderam a arte em amarras de lei,

Pois arte que pensa incomoda esse rei.

E o povo assiste, num sono profundo,

A morte da voz mais bonita do mundo.

O governante passa,

Olhando o futuro através do espelho,

Deixando o cortiço em eterno vermelho.

Cuidado, Ilhéus, com o perfume do fruto,

Pois por trás do turismo,a história está de luto.

Se a musa de bronze não pode falar,

Quem vai, no silêncio, o teu povo salvar?