O PRAGMATISMO DO VELHO BAEZA
Guilherme Albagli de Almeida
Sempre gostei de imitar o que para mim é novo, e me agrada. Sabendo das idas dos membros de um jovem grupo político à Romaria da Lapa, fiquei curioso, comprando em 92 uma vaga apertada num pau de arara, lá chegando com moradores da Marambaia e da rua do Cinco Estrelas. Depois disso, lá voltei umas 25 vezes, impressionado pela Geologia e História da formação daquele centro de peregrinações, antes e depois da chegada dos europeus ao local.
Foi numa dessas visitas que me hospedei numa rancharia bem em frente à rodoviária local. Era o Sr. Baeza, o seu dono, e Honorina, a sua esposa. Ele, com uns 80, ou quase; baixinho, moreno claro, careca com o resto do cabelo branco, bem humorado e de pouca conversa, – isso antes de conhecer o interlocutor -. Ficamos amigos. Viveu muitos anos em SP, acho que trabalhando no Bom Retiro, pois se familiarizou com aspectos da cultura judaica. Certa vez, proseando com o meu amigo na sua varanda do fundo, vi as peças do frechal do telhado se trespassando umas às outras; perguntei o porquê, dizendo ele ser para as reaproveitar, quando devolvesse o terreno, que não era seu. Depois, descobri que até os seus tijolos eram de uma qualidade especial de cerâmica, capaz de ser realmente reutilizada, se usada com argamassa fraca.
Anos depois, procurei a rancharia do Baeza e não mais a encontrei. Apontaram para uma casa uns 60 m adiante, e olha lá a casa do Baeza, novamente… Kkkk… Remontou a casa e ali me hospedei, aprendendo com a Honorina uma técnica de se aferventar três vezes o fato, antes de temperar uma fatada.
Há uns quatro ou cinco anos lá voltei, com colegas e alun@s. Procurei o Baeza, que não mais morava na área da Rodoviária, mas perto da Praça Municipal. Muito velhinhos, ele e ela, não mais me reconheceram. Mesmo assim valeu a visita. A família estava em polvorosa pois ele já ia fazer noventa e ainda passava várias horas por dia trepado no telhado da nova casa, a terminando. Pelo q ele falou, fazia isso pois não haveria quem o fizesse, “depois”.
Por causa dos ensinamentos do Baeza, preciso comprar um terreninho desocupado, aqui no Nélson Costa. Tenho louça sanitária, esquadrias de demolição e quero reutilizá-las. Imitando Baeza, não serrei as peças do telhado de um galpão, hoje desmontado, tendo tijolos maciços, antigos, de uma certa olaria “Amorim”; e telhas Simonassi, pelo menos para cobrir uma lavanderia, no fundo de uma pequena casa térrea, de planta tradicional, com dois quartos, para alugar ou servir aos meus netos, se vierem aqui fazer faculdade. Viva o Baêza; só falta o terreno. Quem souber de um, me avise.


























































