POBRE NÃO COME PIB

Manoel Tourinho, Carlos Pantoja e José Alexandre Menezes (*)

Noam Chomsky, é um intelectual. Americano. É Professor Emérito do MIT, o Massachusetts Institute of Technology. É também Professor Laureado pela University of Arizona. Esses títulos são reconhecimentos bastante considerados pela sociedade acadêmica americana. Considerado o mais importante ativista intelectual do mundo. Escreveu obras questionadoras como: Understanding Power, e Who Rules the World, este já tem edição em português publicado pela Crítica, 2017. Sobre Chomsky, Arundhati Roy, ativista indiana dos direitos humanos e ambientais, disse que Noam faz parte de um pequeno grupo de indivíduos lutando contra toda uma indústria. E isso o torna não só brilhante, mas heroico. Uma de seus mais recentes livros (2017) tem título prosaico: ”It is the responsability of intellectuals to speak the truth and to expose lies” exatamente porque não há uma só palavra nesse título que não expresse o sentido mais chão dos termos, ou seja, a ‘responsabilidade dos intelectuais de falar a verdade e expor mentiras’. A escolha é seguir o caminho da integridade onde quer que ele leve. Nessa parte do texto trazemos a liça para reflexão o agronegócio brasileiro. É importante se questionar sobre o quanto é desejável do ponto de vista das políticas públicas aumentar na Amazônia, a participação do agronegócio exportador a custos ambientais e humanos elevados. Estimulados pelas valorizações momentâneas de “commodities” e disparadas do dólar, a preferência é sempre o mercado externo, ainda que a fome do pobre salta aos olhos: mais de 5 milhões passam fome e quase 40 milhões vivem no mercado informal de trabalho. É justo neste cenário, retenções de alimentos com propósito de evitar queda de preços? No processo civilizatório é honesto não reconhecer os crimes ambientais contidos nas suas operações de produção? Desde o preparo do solo, os insumos químicos para a produção e os fins a que se destina, longe muito longe, de assegurar comida limpa e barata. Na perversa lógica das “commodities” mais vale o comercio exterior ao comercio interno. Exportar é o destino. O aumento acumulado do PIB do Agronegócio no primeiro quadrimestre de 2020 foi da ordem de 3,78%, apesar da pandemia… Resultado similar foi apontado nos segmentos afins como o crescimento de 1,33% do PIB do ramo agrícola; 1,05% dos agros serviços e 0,37% da agroindústria. Proclamas enfeitiçadas às custas da expansão da área de produção e dos ganhos de produtividade, segundo o Cepea/USP (2020). Exaltados no “Agro Pop; Agro Tec. Agro Tudo”; menos na desconcentração da renda, na mitigação da fome endêmica e do desemprego estrutural brasileiro. Expulsões de trabalhadores da terra, assassinatos de lideranças são marcas muito perversas deixadas pelos caminhos do agronegócio na Amazônia. Tudo está interligado na “Nossa Casa Comum”, inclusive os danos a vida humana e não humana trazidas nas cartilhas das atividades madeireira, “pecuarização” e plantio de soja.

Essas são verdades que os nossos “nativos” professores, pesquisadores e intelectuais titubeiam em denunciar; preferem silenciar aos acenos de bolsas, viagens ao exterior, equipamentos para os seus laboratórios. Não vendo nossos acadêmicos lutando pela promoção da liberdade, justiça, misericórdia, paz e bem, os governos, sem exceção, igual ao de agora, prefere a desidratação do sistema público de ensino e pesquisa porque assim quebram as resistências acadêmicas e o “Future-se” instala-se. Voltemos a verdade: O pobre não come PIB, mas come a comida sadia da agricultura familiar, cuja métrica é ser humana demais, porque serve primeiro em casa e depois vende na porta ou comparte; troca, faz escambo. Pratica a arte da terra com rosto humano. Com ela não há fome. Ninguém fica sem um prato de comida na casa do pobre. Na Amazônia, a agricultura familiar, incentivada e adotada pelos governos, tem plenas condições de oferecer alimentos em quantidades adequadas com qualidades saudáveis. A expulsão direta da mão de obra rural para os meios urbanos tenderia a queda. Os tugúrios urbanos, a favelização, é efeito direto da produtividade da terra com a mecanização, sementes hibridas, custos competitivos. A fantasia no “Novo Rural”. Desfigurado da sua cultura, da sua gente, das suas irmandades. É um “Novo Rural” sem alma, completamente “despiritualizado” a ferro e fogo. Pobreza invertida, mostrada agora pelo COVID-19. A base da pirâmide passou pra cima. O vértice da pirâmide afundou na insensatez do capitalismo agrário. O capitalismo não tem cuidado pretérito com a pobreza, ao contrário acentuá-la é garantir a expropriação futura. Precariado. Acentuar o “privilégio da servidão”, sem maquiagem, porque o tempo de trabalho é também de dominação social. Acentuada nas academias. Aulas Remotas. Professores empolgados… Por quê? Alienação. Recentemente em uma revista estrangeira, famosa, a “Science” (edição de 17/7/2020) um grupo de acadêmicos brasileiros e não brasileiros, de instituições nacionais e não; mas liderados por um professor de nome indígena Raoni, da UFMG, Minas Gerais, publicou o artigo: “The rotten apples of Brasil’s agribusiness”. Tremores sísmicos foram detectados no epicentro do poder, Brasília. A Ministra. O Veneno. Os “doze apóstolos” intelectuais, autores, parecendo ter lido Chomsky, expuseram com responsabilidade moral a verdade e tiraram as máscaras atrás das quais o agronegócio esconde os fakes. Pobre não come PIB. Come comida que o agro prefere mandar pra fora e mesmo assim envenenada tanto social quanto ambiental: 20% da soja e 17% da carne agro+negociada para o exterior, vem de 2% de propriedades que desmatam ilegalmente na Amazônia e no Cerrado. Os CAR, Cadastros Ambientais Rurais, tornaram-se instrumentos oficiais de grilagem de terra, com áreas municipais cadastradas maiores que sua própria superfície, como o exemplo de Gurupá (PA), no Marajó. Na negligência gerencial deste cadastro, segundo o Serviço Florestal Brasileiro, até o final de 2019, dos 93,7 milhões de hectares cadastráveis na região Norte, foram cadastrados 152,6 milhões de hectares! Um convite para novos conflitos no campo amazônico. Um outro estudo conduzidos por oito acadêmicos da Trase, Imaflora e ICV,(Junho,2020) cotejando a produção de soja e o desmatamento ilegal, em Mato Grosso ( daí a proposta do governo federal de rever a geografia da Amazônia Legal, afim de não incidir “olhares” dos ambientalista sobre Mato Grosso), mostra que 80% da produção de soja provém de 400 fazendas assentadas em terras florestais desmatadas ilegalmente. A produção foi exportada – 46% para a China e 14% para a União Europeia. O foco prioritário do agronegócio na Amazônia, é resultante da demanda alimentar da China. A China troca perversamente nossas florestas por soja. Envenenar nossos solos e nos rios, que lhes importa! Para alimentar o povo chinês, vale tudo! Até mesmo esquecer que Mao Tsé-Tung passou por lá. Os resultados retóricos para a composição do PIB são notáveis, mas infelizmente o pobre não come PIB; aliás, o alimento que tem origem no agronegócio e chega à mesa do brasileiro que pode pagar, é de péssima qualidade; a carne então nem se fala, mesmo retendo o boi para que o preço da carne aumente.

_____________________

(*) Os autores são agrônomos e engenheiro florestal, engajados nos movimentos pelo uso responsável do bioma amazônico. Agradecem a assistência da Dra. Ima Vieira, do MPEG, Belém.

PROFESSOR BENEDITO DE MORAIS

Luiz Ferreira da Silva luizferreira1937@gmail.com

O artigo objetiva resgatar ex-alunos, provavelmente com mais e 65 anos, do Mestre Benedito, na expectativa de promover um Encontro, aqui em Maceió.

Em 1956, por orientação do colega do Liceu Alagoano, Djalma Bastos de Morais, seu sobrinho, matriculei-me na primeira turma de álgebra do Professor Benedito, como assim era mais conhecido.

Não era para qualquer um. Além de famoso e exigente com o giz nas mãos, sua forte compleição física e voz aguda estridente, ademais das baforadas do seu cachimbo, externavam um campo energético contagiante, que ia da admiração ao receio absortivo.

Com certeza, era essa aura que mantinha a classe vidrada nos seus ensinamentos, eivados de trejeitos e certo humor, mantendo-a plenamente conectada, facilitando o entendimento de temas áridos.

Dessa forma, discorria sobre a teoria de aritmética, uma matéria desconhecida da turma, até chata, mas palatável à medida que o mestre a empurrava de goela a dentro, mostrando o quanto era importante ou interessante saber os “noves-fora um” ou que “zero dividido por zero era sete”.

Mais adiante, esmerava-se em nos explicar a correspondência dos lados do triângulo, identificando os ângulos congruentes, fazendo-nos ligados à semelhança desta forma geométrica, diretamente ou sobrepondo-os imaginariamente.

No mesmo diapasão, já na segunda turma, um outro tema não tão ao nosso gosto, as famosas séries convergentes, era esmiuçado a um nível de compreensão plena.

No decorrer das aulas, usava técnicas para amenizar a chatice dos números, ora com alguns “chistes” curtos, ora dando um freio de arrumação no pessoal, evitando dispersão ou perturbação da ordem.

Um aluno, ao lhe ser perguntado sobre determinado assunto, no decorrer de uma sua explanação, respondendo que sabia, mas se esquecera, prontamente, na bucha – “se esqueceu ou nunca soube”?

De outra feita, interrompido no meio de um teorema, voltava-se ao interlocutor inopinadamente – “aguarde um pouco, deixe-me concluir, que isto aqui está decorado”.

Ou, concentrado num problema com a poeira do giz lhe maquiando o rosto, notava alguém sem prestar a devida atenção, conversando com o parceiro ao lado, parando a aula: – “vamos esperar que o fulano acabe o papo, para eu poder continuar com a aula”. Isso deixava os dois no chão, literalmente.

Por outro lado, melhorei o meu deficiente latim do padre Pontes, como um efeito colateral positivo. No meio duma afirmativa matemática, lascava a expressão “mutatis mutandis”, que nos orientava a aplicá-la em outras situações, bastando mudar o que deveria ser mudado. E quem não se lembra do “a fortiori”?

O nosso acesso era restrito ao salão, logo à direita após subir os degraus da soleira daquela casa da Praça das Graças, limitando-se ao início do corredor, interceptado por sua cadeira e balanço, lugar preferido para o seu “fumacê” de fumo aromático.

Nunca presenciei ninguém lá de dentro, tampouco sua esposa. Possivelmente, ordens dele. Aliás, falava-se que se casara com uma tia. Com certeza, se é verdade, sob uma paixão avassaladora, transformada num amor de almas gêmeas.

Para se aquilatar o valor dos cursos do Professor Benedito, basta mensurar através dos subsequentes engenheiros, físicos, matemáticos, funcionários do Banco do Brasil e oficiais militares, de origem alagoana, espalhados por esse Brasil a fora, frutos do seu magnífico intelecto.

(Maceió, AL, 24 de julho de 2.020)

O PENSAMENTO DA SEMANA

O mundo nos trata como nós nos tratamos a nós mesmos. (Luís Gasparetto)

A POESIA DA SEMANA

Valsinha

(Chico e Vinícius)

Bem que poderia ser a canção

pós pandemia para o regozijo

nas ruas e logradouros públicos (LF)

Um dia ele chegou tão diferente

Do seu jeito de sempre chegar

Olhou-a de um jeito muito mais quente

Do que sempre costumava olhar

E não maldisse a vida tanto

Quanto era seu jeito de sempre falar

E nem deixou-a só num canto

Pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar

E então ela se fez bonita

Como há muito tempo não queria ousar

Com seu vestido decotado

Cheirando a guardado de tanto esperar

Depois os dois deram-se os braços

Como há muito tempo não se usava dar

E cheios de ternura e graça

Foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança

Que a vizinhança toda despertou

E foi tanta felicidade

Que toda cidade se iluminou

E foram tantos beijos loucos

Tantos gritos roucos como não se ouvia mais

Que o mundo compreendeu

E o dia amanheceu em paz.

A PIADA DA SEMANA

O marido combinou com a mulher. – Daqui em diante, a cada transa nossa, coloco 5 reais neste cofrinho de barro e, no final do ano, o apurado é seu para comprar o que bem quiser.

– Combinado, aprovou a esposa. E assim procederam.

No dia 25 de dezembro, juntos, quebraram o cofre, surpreendendo ao “machão” aquelas notas de 10, de 20, 50 e até de 100 reais.

– E antes que ele perguntasse que diabo acontecera, ela prontamente explicou: – Por acaso, achas que todo o mundo é tão pão duro como tu?!

oOo

Acessar: www.r2cpress.com.br