O HOTELEIRO QUE QUASE VIROU BODE DE MACUMBA.
Tudo começou numa tarde comum no hotel, corria o ano de 1999, quando um paulistano de uns 50 anos, bem arrumadinho, chegou com uma mala enorme, TINHA UMA cara de quem perdeu a final do campeonato. Chamava-se Amarildo. Depois de fazer o check-in, me puxou pro canto da recepção e baixinho ao pé de ouvidos abriu o coração:
— Vim fazer, aqui na Bahia, um trabalho forte pra trazer minha ex-mulher de volta. Ela saiu de casa com um garotão. Eu trouxe algumas peças de roupas dela, fotos, pedaços de cabelo que eu tinha guardado antes dela ir embora. Tá tudo aqui na minha mala.
Sempre fui um homem prático, precisava ganhar dinheiro donde quer que ele viesse, o Hotel em construção, uns trocados extras não fariam mal, pensei: “Trabalho é trabalho”. Fiz uns contatos e arrumei um pai de santo renomado daqui de Ilhéus.
O que eu não sabia é que daí pra frente a minha vida viraria um inferno logístico.
O pai de santo não mandava comprar qualquer coisa. Era como se fosse aviar uma lista de supermercado, voltada para o despacho: velas de sete dias, charutos, cachaça, pipoca, farofa, mel, pano branco, pano vermelho, ervas específicas, imagens de santo, e a pior exigência: um bode vivo, novinho, sem nenhuma mancha preta.
Para achar o tal bode branquinho sem mancha rodei quase meio Sul da Bahia atrás do bendito bode e nada. Fui encontrar um no interior, na cidade de Uauá, paguei caro, e ainda tive de providenciar o frete e, por cima, ouvir os conselhos do vendedor: “Cuidado hein, esse aqui é arisco e urina quando fica nervoso”. Colocaram o animal num saco de sisal, reforçado, e o enviaram para o Hotel via um representante comercial que se dirigia para Ilhéus. Fui buscar próximo da rodoviária e o coloquei no porta-malas do carro do hotel, que imediatamente começou a feder a bode, o bicho estressado. Ficou preso no saco por dois dias esperando para ser despachado pelo Pai de Santo.
No dia do despacho, o clima já era de novela das seis. Amarildo suando frio, eu no volante do meu carro que parecia um curral de fedido, fui dirigindo e tentando fazer piada pra aliviar a tensão do tal de Amarildo. Estava eu, verdadeiramente, de olho no preço eu cobraria por todo aquele trabalho e desconforto.
— Seu Amarildo, se a mulher não voltar depois disso tudo, pelo menos o senhor ganhou uma história pra contar pra seus filhos e netos.
Paramos na casa do pai de santo. Logo ali depois da ponte Lomanto Junior, numa daquelas casinhas ficam penduradas no morro, acima da via. O babalorixá, um homem imponente de uns 1,90m, voz rouca, muito conhecido, todo de branco, saiu com mais três sacolas cheias de “apetrechos”. Na hora de guardar todo aquele material, tirou o saco do bode do porta-malas pra encaixar melhor as outras coisas e… acabou que sem perceber, esqueceu o bode na lateral da pista. Ninguém percebeu. Eu, ansioso pra acabar logo com aquilo, ganhar minha grana (imaginada) só liguei o carro e segui viagem para o norte de Ilhéus.
Chegamos na rodovia Ilhéus-Uruçuca. Entramos numa estradinha vicinal de terra até onde o carro conseguia ir.
A cachoeira ficava a uns 50 metros mata adentro depois de uma trilha estreita. Todos desceram do carro carregando suas sacolas, bode (que eles achavam que ele estava ensacado lá no porta-malas), imagens, garrafas e etc….
Eu, com cara de quem não queria nem saber, falei:
— Vou ficar aqui aguardando e vigiando o carro. Nunca se sabe, né? Lugar deserto, carro não pode ficar sozinho, já estava meio assustado com toda aquela movimentação, pois chegaram mais três carros cheio de gente todos de branco e coisa e tal.
Fiquei sozinho, ouvindo o barulho da cachoeira ao longe. Passaram-se uns 25 minutos. Eu já estava cansado de esperar quando vi um dos caras do terreiro voltando a meio trote pela trilha, parecendo que tinha visto assombração.
Já chegou perto gritando:
— Cadê o bode?!
Desci do carro e abri o porta-malas. Vazio. Só o cheiro.
— Peraí disse o cara!… Putz!… o bode não tá aqui não!
Foi aí que o figurante de despacho gritou em direção à mata, com as mãos em concha:
— CADÊ O BODE?!… ONDE VOCÊS DEIXARAM O BODE?!
Do meio da mata veio a voz grossa e autoritária do pai de santo, ecoando como se fosse um trovão ou próprio Exu:
— ESQUECE O BODE!… TRAZ O MOTORISTA!!
Silêncio. Até os passarinhos pararam de cantar.
Senti o coração dar um salto mortal triplo carpado. Na mesma hora veio um filme na minha cabeça: eu todo amarrado no lugar do bode, o Amarildo fazendo “trabalho” comigo e me despachando para o além, o pai de santo gritando “esse BODE aqui é mais forte que o outro!”.
— Eu?! — murmurei (branco feito papel). — Esses doidos querem me despachar no lugar do bode!
Não pensei duas vezes. Parti para o volante do carro e com a mão tremendo tanto que quase engatei a quinta marcha no lugar da ré. Dei ré rasgando os pneus dianteiros na terra, virei o carro de qualquer jeito e sai voando pela estrada, deixando uma nuvem de poeira vermelha pra trás.
Cheguei no hotel em tempo recorde, tranquei o carro, subi pro meu quarto e fiquei mais de duas horas com a luz acesa olhando pro teto.
Nunca mais apareceu o Amarildo de São Paulo. Perdi toda a estadia do cara e todo os serviços eu tinha feito, tomei um prejuízo danado. Nunca mais apareceu o pai de santo muito menos o bode.
— O bode deve tá vivendo como rei por aí. Bebeu a cachaça, comeu a farofa e ainda ganhou liberdade. Melhor destino que o meu ia ter, com certeza.
Desde então, quando chega hóspede com guia no pescoço, roupa branca na mala ou falando de “trabalho pra trazer alguém de volta”, o aviso para os recepcionistas do Hotel é que não terceirizamos serviços de quaisquer naturezas.
— Na verdade é que prefiro perder o cliente a virar substituto de bode.
A lição foi cara, fedida, mas… inesquecível!
Leonardo Garcia Diniz
“Bode Preto” – Hoteleiro.




























































