O 1004
Por Guilherme Albagli
No final do Século XIX inaugurou-se a Intendência Municipal, hoje pomposamente chamado “Palácio Paranaguá”, desenhado no estilo neoclássico, com todos os detalhes que caracterizam este estilo: simetria bi-lateral, colunas apostas na parede frontal, um frontão na parte alta, encimado pelo escudo republicano; acrotério com estátuas alusivas à agricultura e grifos nas suas quatro extremidades; paredes em “pedra-rocha” – nosso conhecido granito -, assoalhos de madeira negra e amarela do Pará; escadarias de madeira com corre-mãos apoiados em delicados colunelos torneados; paredes adornadas por “pinturas de chapa” executadas pelo italiano Oreste Sarcelli; cortinas, sanefas e móveis do mais alto estilo, em jacarandá.
Antes de iniciada a sua construção, um bate-boca jornalístico acerca da conveniência da sua edificação:
“Porque construir tal obra suntuosa na periferia do núcleo, ao lado de um charco cheio de mosquitos, cobras e jacarés?”
perguntou o redator do jornaleco mantido pela oposição. Pois é: toda aquela área, entre a atual Praça Seabra e o Pontal dos Amorim – hoje a Ponta da Pedra – era um imenso charco que fazia de toda a vila um local absolutamente insalubre pela mosquitaria reinante.
O responsável pela obra, um certo Mestre Garcia, deu boa conta do seu serviço e hoje, passados 119 anos, nunca ali apareceu qualquer trinca, embora imponente prédio tenha sofrido várias intervenções desastrosas, como a substituição da antiga escadaria por outra bem grosseira, de marmorite sobre concreto.
Terminada a obra, em 1907, olha que sobraram pedras, madeira e colunelos do corre-mão da intendência! O Mestre Garcia, que adquiriu um terreno num ermo ao norte da cidade, a centenas de metros de distância das ultimas construções, que só existiam até a atual Praça Ruy Barbosa. Em 1913, ou 1915, ali concluiu um imponente sobrado no estilo eclético que começava a surgir na cidade. Para quebrar a monotonia da parede frontal, aplicou adornos em relevo trazidos de fora, de navio. Por dentro, tudo muito simples, afora a escadaria que leva ao pavimento superior, independente do térreo, e os assoalhos, ainda hoje preservados.
Depois do 1004 passar por vários proprietários, o jovem comerciário Manoel Carlos Amorim de Almeida, junto ao seu irmão João Alfredo, resolveu comprar o antigo imóvel da atual Soares Lopes. O então dono acertou a venda por doze prestações mensais mas, malaquias, entregou ao gerente de um banco as doze promissárias com as mesmas datas da cobrança. Apavorado, Manoel Carlos contou com a colaboração do amigo gerente do banco que, tudo dentro da legalidade, achou um meio das prestações serem realmente pagas em doze vezes.
Ali viveu minha avó Alice Amorim de Almeida, que se alternava entre a sua cadeira de balanço, lendo o Diário da Tarde e se queixando da tinta de impressão fajuta que lhe soltava às mãos, e o peitoril da janela, onde, cotovelos apoiados numa pequena almofada, se distraía vendo o fraco movimento da avenida, naquele tempo.
Para o 1004, eu e meus quatro irmãos mais velhos fomos levados dias depois de nascermos na Santa Isabel. Ali vivi por seis ou sete anos, no andar de cima, mas descendo constantemente ao térreo onde estavam a minha avó e duas tias.
Certo dia, meu pai fez uma troca com João Alfredo e ficou na posse de todo o prédio. Minha mãe, que nasceu filha de comerciante mas com espírito de rainha, terminou a obra do Mestre Garcia, trocando as esquadrias, assentando vidros decorados a jato-de-areia, e encomendando suntuosos armários que fez, um dia, Ivete Sangalo parar uma música, em cima de um trio, num carnaval, para gritar,
“Vixe, que armários lindos”…
Todos sabem que o valor afetivo de um bem pode ser muitas vezes maior que o seu valor de mercado. O 1004 tem muita história contida em cada pedaço de pedra que compõem as suas paredes: por ser um filhote da Prefeitura Municipal; por ser a mais antigo edifício residencial em pé, na cidade e por ser, ao mesmo tempo, o primeiro edifício pluri-familiar; pelas cinco gerações da minha família que ali vivem ou viveram, e, por fim, sem que seja o menos importante, pelo seu valor estético – um bem cultural que poderá, algum dia, depois de tombado, facilmente abrigar um centro cultural ou um dos museus da cidade.



























































