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Heckel Januário em: LEMBRANÇAS DA EXTENSÃO RURAL (9)

Seria mais um dia normal na vida de um extensionista se algo um tanto circunstancial e meio assustador não tivesse acontecido.

Pois é. Adentrava-me, ao lado do administrador na fazenda Bom Gosto rumo ao cacaual quando de súbito uma cobra atravessa o caminho. Vale acentuar que longe de andarmos numa estrada aceitável de pedestre, fazíamos esforços para varar uma trilha literalmente intransitável. Tais obstáculos, entretanto não nos impediram de constatar a enormidade do réptil. Como atravessara lentamente, dias depois de maneira calma cheguei a calcular –considerando o nosso instintivo passo para trás– cerca de 30 centímetros para onde nos postamos e mais ou menos 2 metros para o comprimento da serpente.

Encontros inesperados com ofídios não eram de se estranhar no labor extensionista da Ceplac, mas este, por haver pensado ser o temível Jaracuçu Pico de Jaca, se distinguiu pelo tamanho do susto.  Após alguns minutos o acompanhante ao perceber meu nervosismo, tentou me acalmar:

– Não se preocupe. Não tem veneno não, só foi uma Papa Pinto. O seu Pereira usa umas 20 no cacau para comerem as venenosas. E já estamos pertinho da roça.

Por pouco não me convencera, mas a imediata lembrança da dita proximidade e a constatação in loco do mato nas alturas a me induzirem que não encontraríamos um cacau “bate folha” pela frente, fui incisivo:

– Meu amigo, sinto muito. Vou me picar. Quando o chão estiver limpo estarei aqui com todo o prazer. Ficarei atento em agendar a data do retorno.

Era a minha primeira visita ao imóvel e objetivava coletar amostras de solo destinadas a análise para adubação. O bem possuía bom número de cacaueiros, seringueiras e o dono, já falecido, era o cacauicultor e comerciante ilheense conhecido como Pereira Ventin; e situava-se nas imediações do extinto Posto Policial Rodoviário da rodovia Ilhéus-Itabuna. Segundo Francisco Benicio, agrônomo –e cacauicultor– de antiga lavra da Ceplac e lotado de muito no escritório de Ilhéus deste órgão, a fazenda em foco fora adquirida tempo atrás pelo poder público federal para fins de reforma agrária e transformada no Assentamento Frei Ventuy. Os membros dessa posse de terra hoje em dia comercializam produtos agrícolas na área do referido posto policial, acrescenta o agrônomo. Sizinio Barros, fazendeiro na época nessa redondeza, ex-ceplaqeano e focado no Lembranças (8) foi um dos seguidores desse método carnívoro com exemplares ofídicos adquiridos do citado lavrador.

Mesmo havendo um relacionamento por ossos do ofício assim dizendo, com esses animais, a bem da verdade parte de minha trajetória na extensão rural foi marcada com o “velho medão” imperando nessas ocasiões, apesar de nunca haver demonstrado e até gargantear ter me deliciado do prato da ‘sucuruiuba’ por algumas vezes. Considerava-me sim, confesso, um ofiófobo. Medo este (da outra metade), importante ressaltar, amenizado com as explicações de Antonio Argolo –estudioso do rastejante na Região Cacaueira da Bahia, com tese de mestrado, doutorado e o escambau–, que eles não possuíam simplesmente a tão mal falada agressividade.

Em tempo: No escrito “Dois Cobras” de dezembro de 2009 este escrevinhador ao aludir dois especialistas brasileiros em cobras –Antônio Argolo e Paulo Vanzolini– faz breve referência a essa passagem da Papa Pinto, ocorrida nos fins dos anos 70 (sec.  XX), a qual aproveitou para esta (9º) Lembranças… O primeiro, ainda Técnico Agrícola da Ceplac –pela sua dedicação na busca de conhecimento desses répteis– possuía a alcunha de “Argolo das Cobras”. Atualmente atua na Universidade Estadual Santa Cruz. O segundo (morreu em abril de 2013) além do aporte cientifico sobre os ofídios deixado para a humanidade, fora como compositor musical, autor das famosas “Ronda” e “Volta por Cima”, entre outras belas canções.

Em tempo2: A deposição de material orgânico ao solo é típica das florestas e recebe o nome de serapilheira. Ao formar uma camada orgânica serve, nas mais   outras utilidades, para proteger o solo da erosão das chuvas e o enriquecer de nutrientes. É uma característica também de nosso sistema agroflorestal e se chama na lide cacaueira de “bate folha” (5º parágrafo). Como esta camada impede a invasão de plantas daninhas ao terreno, em um cacaual bem trabalhado o deixará limpinho da silva.  Em tempo3: Repetimos que essas Lembranças… não se prendem aos fatos técnicos em si, mas aos que os envolvem, em especial os com alguma dose de jocosidade.

Heckel Januário


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3 respostas para “Heckel Januário em: LEMBRANÇAS DA EXTENSÃO RURAL (9)”

  • Luiz Ferreira da Silva says:

    Não esqueça de mais tarde reunir num livro histórico

  • antonio nunes says:

    JANÚ,

    Sensacional. Eu não tinha conhecimento dessa sua linha de texto.Parabéns.É sem dúvida alguma um resgate ao trabalho da CEPLAC, você com a sua narrativa demonstra o alcance da labuta, e o que mais me impressiona é que nós estamos incluídos nela. Parabéns.
    Menezes

  • antonio nunes says:

    JANÚ,

    BELO LEMBRETE DO LUIZ FERREIRA.

    MENEZES

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