Luiz Castro em: DECOLORES
SAUDADES DE PIRANGY
Boa parte da minha infância passei as festas natalinas em Pirangy. Normalmente viajava de trem da Estrada de Ferro de Ilhéus. O passeio era pitoresco, pois passávamos por lugares interessantes. Existiam várias estações onde o trem parava para se abastecer de água e lenha, bem como carregar e descarregar mercadorias. Nas estações tinham um fluxo de passageiros bastante movimentado onde os vendedores vendiam frutas da região, refresco e beijus. A viagem era um pouco longa, contudo era divertida. Ao chegar em Pirangy o maquinista fazia soar o apito do trem anunciando a chegada. Ao desembarcar ia correndo para casa da minha avó que já estava me esperando. Depois hospedava=se na casa do meu Tio Virgílio Castro que era dono do “Armazém do Povo”. Comerciante conceituado, exercia grande influência política. Ele gostava de criar aves e tinha um pássaro preto que era domesticado, cantava muito e chamava atenção dos transeuntes que passavam em frente ao armazém. Além de ser vascaíno roxo, meu tio gostava de jogar sinuca, bebia uma caninha da boa e fumava um cigarrinho de palha que somente ele sabia fazer. Meu tio conversava pelos cotovelos e por ser político defendia seu partido, UDN, com unhas e dentes. Em sua residência o jantar era servido pontualmente às 18:00 horas e em seguida dirigia-se para o passeio de sua residência para prosear com os amigos que por ali passavam. A energia elétrica era desligada exatamente às 22:00 horas, obrigando a população a se recolher mais cedo. Na época era comum utilizar o candeeiro Aladim com velas, que clareava bem.
Em certa ocasião, durante uma prosa no passeio de sua residência, meu tio contou uma história bastante interessante à respeito de um carteiro que trabalhava nos correios da cidade, cuja história esta publicada no livro “Crônica da Capitania” do escritor Helio Pólvora. “O carteiro era conhecido por Valdemar e o mesmo deslocava-se diariamente para a cidade de Itabuna para buscar o malote de correspondências. Ao retornar costumava violar as correspondências no intuito de inteirar-se de tudo em primeira mão. E ao chegar na cidade o carteiro já sabia de tudo dos casos amorosos, situações financeiras, intrigas familiares, notícias de desastres , morte e herança. Daí é que o carteiro ao aproximar-se do destinatário dizia-lhe sem preâmbulos.
– Meus pêsames.
-O quê?
-Meus mais profundos e sentidos pêsames.
-Mas por que, o que aconteceu?
-Sua digníssima genitora acaba de falecer em Salvador.
A voz do carteiro era lenta, expremia o maior pesar. E ato continuo a comunicação verbal, estendia o telegrama.
Certo dia dirigiu-se a um coronel que estava sentado no bar quando foi abordado pelo mesmo.
-Bom dia, coronel.
-Bom dia, Valdemar. Como vai a vida?
A vida, coronel, é um sutiã: meta os peitos.
-Rá, rá, rá… Esse Valdemar…
-Coronel, o menino de Salvador está pedindo dinheiro.
-O que, homem? Mas eu já mandei a mesada inteira.
O carteiro curvava-se para o cochicho:
-Com certeza gastou tudo no Tabaris.
-Vai ver é verdade: o moleque anda doido atrás de mulher.
-Teve a quem puxar coronel.
=Rá, rá, rá… Esse Valdemar tem cada uma. Deixe ver o telegrama.
O coronel desdobrou a mensagem, leu e enfureceu-se:
-Filho ingrato. Moleque safado.
-O que foi, coronel? O telegrama dele é muito educado.
-Qual educado qual nada! – bradava o coronel. – Isso lá são maneiras de pedir!
Tomou um gole de conhaque, engasgou-se:
-Papai, mande mais dinheiro! – recitou, aos berros, o coronel, rubro de indignação.
-E como o senhor queria que ele escrevesse? – perguntou, solicito o carteiro Valdemar.
-Ora essa, queria que ele dissesse aqui: “Papai, mande mais dinheiro”, recitou o coronel em voz branda.
Em outra ocasião Valdemar ao ler uma correspondência levou a noticia de grande infortúnio ao destinatário.
-Tenho o supremo desgosto de comunicar-lhe que sua mulher fugiu – disse Valdemar, com a carta aberta na mão.
O destinatário ficou impassível:
-Foi mesmo?
Cabeça inclinada pensou um pouco e, em vez de arrancar os cabelos, cantou:
-Liberdade, liberdade, abre as asas sobre mim!
A partir desse dia infausto, Valdemar apressou o pedido se aposentadoria. “
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Colaboração de Luiz Castro
Bacharel Administração de Empresa



























































