SAUDADES DE PIRANGY 

Boa parte da minha infância passei as festas natalinas em  Pirangy. Normalmente viajava de trem da Estrada de Ferro de Ilhéus. O passeio era pitoresco, pois passávamos por lugares interessantes. Existiam várias estações onde o trem  parava para se abastecer de água e lenha, bem como  carregar e descarregar mercadorias. Nas estações tinham um fluxo de passageiros bastante movimentado onde os vendedores vendiam frutas da região, refresco e beijus. A viagem era um pouco longa, contudo era divertida. Ao chegar em  Pirangy o maquinista fazia  soar  o apito do trem  anunciando a chegada. Ao desembarcar ia correndo para casa da minha avó que já estava me esperando. Depois hospedava=se na casa do meu Tio Virgílio Castro que era dono do  “Armazém do Povo”. Comerciante conceituado,  exercia grande influência política. Ele gostava de criar aves e tinha um pássaro preto que era domesticado, cantava muito e chamava atenção dos transeuntes que passavam em frente ao armazém. Além de ser vascaíno roxo, meu tio gostava de jogar sinuca, bebia uma caninha da boa e  fumava um cigarrinho de palha que somente ele sabia fazer. Meu tio conversava pelos cotovelos e  por ser político defendia seu partido, UDN, com unhas e dentes. Em sua residência o jantar era servido  pontualmente às 18:00 horas e em seguida dirigia-se para o passeio de sua residência para  prosear com os amigos que por ali passavam. A energia elétrica era desligada exatamente às 22:00 horas, obrigando a população a se recolher mais cedo. Na época era comum utilizar  o candeeiro Aladim com velas,  que  clareava bem.

Em certa ocasião, durante uma prosa no passeio de sua residência, meu tio contou uma história bastante interessante à respeito  de um carteiro que trabalhava nos correios da cidade,   cuja história esta publicada no livro “Crônica da Capitania” do escritor Helio Pólvora. “O carteiro era conhecido por Valdemar e o mesmo deslocava-se diariamente para a cidade de Itabuna para buscar o malote de correspondências. Ao retornar costumava violar as correspondências  no intuito de inteirar-se de tudo em primeira mão. E ao chegar na cidade o carteiro já sabia de tudo dos casos amorosos, situações financeiras, intrigas familiares, notícias de desastres , morte e herança.   Daí é que o carteiro ao aproximar-se do destinatário  dizia-lhe sem preâmbulos.

– Meus pêsames.

-O quê?

-Meus mais profundos e sentidos pêsames.

-Mas por que, o que aconteceu?

-Sua digníssima genitora acaba de falecer em Salvador.

A voz do carteiro era lenta, expremia o maior pesar. E ato continuo a comunicação verbal, estendia o telegrama.

Certo dia dirigiu-se a um coronel que estava sentado no bar quando foi abordado pelo mesmo.

-Bom dia, coronel.

-Bom dia, Valdemar. Como vai a vida?

A vida, coronel, é um sutiã: meta os peitos.

-Rá, rá, rá… Esse Valdemar…

-Coronel, o menino de Salvador está pedindo dinheiro.

-O que, homem? Mas eu já mandei a mesada inteira.

O carteiro curvava-se para o cochicho:

-Com certeza gastou tudo no Tabaris.

-Vai ver é verdade: o moleque anda doido atrás de mulher.

-Teve a quem puxar coronel.

=Rá, rá, rá… Esse Valdemar tem cada uma. Deixe ver o telegrama.

O coronel desdobrou a mensagem,  leu e enfureceu-se:

-Filho ingrato. Moleque safado.

-O que foi, coronel? O telegrama dele é muito educado.

-Qual educado qual nada! – bradava o coronel. – Isso lá são maneiras de pedir!

Tomou um gole de conhaque, engasgou-se:

-Papai, mande mais dinheiro! – recitou, aos berros, o coronel, rubro de indignação.

-E como o senhor queria que ele escrevesse? – perguntou, solicito o carteiro Valdemar.

-Ora essa, queria que ele dissesse aqui: “Papai, mande mais dinheiro”, recitou o coronel em voz branda.

Em  outra ocasião Valdemar ao ler uma correspondência  levou a noticia de grande infortúnio ao destinatário.

-Tenho o supremo desgosto de comunicar-lhe que sua mulher fugiu – disse Valdemar, com a carta aberta na mão.

O destinatário ficou impassível:

-Foi mesmo?

Cabeça inclinada pensou um pouco e, em vez de arrancar os cabelos, cantou:

-Liberdade, liberdade, abre as asas sobre mim!

A partir desse dia infausto, Valdemar apressou o pedido se aposentadoria.  “

Colaboração de Luiz Castro

Bacharel Administração de Empresa