Luiz Castro em: DECOLORES
CAUSOS DE PESCADOR
O bar de Zequito’s é bastante eclético, reúnem-se fregueses de diversas categorias profissionais e cada um tem sua preferência de lazer, sendo que a que se destaca é a pescaria.
Os causos são os mais variados possíveis, cheios de ação e coragem. Acontece que os freqüentadores do bar até a presente data não tiveram o privilégio de degustar uma saborosa moqueca pois as causas são as mesmas: “Hoje não deu, estava ventando muito… o peixe não comeu nada … a arrebentação estava bastante forte… Choveu muito e atrapalhou demais…”. No entanto um determinado freqüentador que não se diz pescador em suas andanças pelos rios do Araguaia no Mato Grosso tem pescado uns tucunarés e piranhas, pois a pesca lá é bastante farta e não precisa saber pescar tanto assim. Certo dia, o pescador do Araguaia levou para o Bar de Zequito’s uma panelada de peixe ao forno com arroz e pirão, acompanhado com um caldo de piranha bastante saboroso que não ficou nem a panela. Até mesmo “Minha Véia” que não é chegado tomou o caldo e ficou fora de si gritando aos berros “Papai está aqui” segurando o gancho da calça e exibindo a sua “inventariante”.
E por falar em peixe no livro “Crônicas da Capitania” de Hélio Pólvora, relata uma história à respeito de “um médico que tinha o hábito de caminhar pelos arredores de Pirangy fazendo sua terapia matinal e ocupacional. Numa certa manhã ao passar próximo ao rio Almada, encontrou um pescador com uma corda de peixes penduradas no dedão:
– Peixe fresco?
– Fresquinho, doutor!
– Pegou agora no rio?
– Agorinha mesmo. Tem uns que ainda estão bulindo. Olhe aqui.
E exibia peixes enormes.
– Eu fico com o robalo.
– Leve a corda toda doutor.
– Não, somente o robalete.
Acertava o preço, pagava e despedia-se:
– Entregue o robalo a Jezabel.
O pescador afastava-se e o doutor retornava a caminhada a esmo.
De passagem pela porta do açougue, o doutor encantava-se com um paulista roliço, bem redondinho, todo ele aparado – peça magnífica para um lombo. E como morria pela boca, entrava e comprava.
– Me faça um favor: mande entregar a Jezabel.
Continuava nas suas perambulações. E assim, de compra em compra, o médico enchia a boca de saliva, prelibando o almoço farto em casa de Jezabel, e gastava tempo para ir fortalecendo o apetite.
Meio-dia, em ponto, entrava em casa de Jezabel. A mulher corria a pôr a mesa. O lombo estirava-se, cortado, na baixela, bem no centro da mesa, rodeado por um caldo grosso de encher as vistas.
– Lombo? Eu lhe mandei um robalo – queixava-se o médico.
– Está ficando doido? Eu recebi foi um paulista redondo.
– Recheou direito? Botou toucinho?
– Botei, homem!
O médico fartava-se. Se lhe acontecia encontrar à mesa uma moqueca de robalo, aquele robalo que ele havia comprado na beira do rio, ou então pitus do Almada, o diálogo variava um pouco.
– Moqueca de peixe? Mas eu lhe mandei um paulista… eu lhe mandei pitus graúdos…
– Está de memória fraca. É, a idade está chegando…”
Na verdade o que ocorria é que em Pirangy havia duas Jezabel, ambas cozinheiras de mão cheia, ambas apaixonadas pelo médico, que as visitava com freqüência. Com elas teve vários filhos. Mas os fornecedores não se emendavam. Ora o robalo ia para uma Jezabel, ora para outra. Ora o paulista e os pitus eram entregues a uma Jezabel, ora a outra. De modo que o feliz médico, nas suas andanças por Pirangy, dificilmente sabia o que o esperava à mesa, o que ia comer.
Colaboração de Luiz Castro
Bacharel Administração de Empresa



























































