Revolução Através da Educação – 1
por Juventino Ribeiro, contador, Ilhéus-BA
Hoje, ao desentralhar meus alfarrábios, deparei-me com amarelados recortes de jornais, artigos que publiquei nos idos de 90, no Diário da Tarde, de Ilhéus, e em A Tarde, de Salvador. Abordava temas de contabilidade e crônicas sobre assuntos variados.
Em um deles, de outubro de 1993, na semana do professor, discorri sobre os termos “professor e educador”. Dias antes visitara um amigo em Uruçuca e, enquanto aguardávamos para almoçar um frango de quintal com talharim, bebemos algumas cervejas ouvindo seu velho pai a nos contar causos de sua profissão de tropeiro, na época áurea do cacau.
Na viagem de volta a Ilhéus, remoendo o termo tropeiro lembrara-me de umas crônicas de Rubem Alves que havia lido. Uma delas me marcou e me inspirara a escrever algo sobre o assunto. Sempre releio “Sobre Jequitibás e Eucaliptos – Amar”, na qual Rubem faz abordagem sobre profissões “que foram sumindo devagarzinho, como o médico que ia até os doentes mesmo a cavalo, o caixeiro viajante, o boticário, os tropeiros que se sucumbiram com a chegada do automóvel e do asfalto”.
Na sequência, Rubem argui: “Educadores, onde estarão? Em que covas terão se escondido? Professores há aos milhares. Mas professor é profissão, não é algo que se define por dentro, por amor. Educador, ao contrário, não é profissão; é vocação. E toda vocação nasce de um grande amor, de uma grande esperança”. Mais adiante questiona: “E o educador? O que teria acontecido com ele? Existirá ainda o nicho ecológico que torna possível a sua existência?”
Rubem relembra um trecho do livro de Jorge Amado, Gabriela, Cravo e Canela, “quando a filha de um coronel diz à sua mãe que pretendia casar-se com um professor. Ao que a mãe retruca, numa clássica lição de realismo político: E o que é um professor na ordem das coisas? Que tem o ensino a ver com o poder? Como podem as palavras se comparar com as armas? Por acaso a linguagem já destruiu e já construiu mundos?”.
Sempre fui apaixonado pelo tema educação. Em 1986, o saudoso Darcy Ribeiro abonou minha filiação ao PDT – Partido Democrático Trabalhista (meu ex-partido). Aceitei seu convite pelo que preceitua o artigo 1º. do estatuto: “Educação, causa de salvação nacional, prioridade das prioridades: alimentar, acolher e assistir a todas as crianças do País, desde o ventre materno; educá-las e escolarizá-las em tempo integral, sem qualquer tipo de discriminação”.
Este era o sonho de Darcy Ribeiro, de Anísio Teixeira, Paulo Freire e de tantos outros que morreram sem ver realizado o sonho da revolução através da educação. Acredito ser possível comprometer pais, alunos e educadores nesse processo, para que o Brasil não perca o bonde da história e se distancie ainda mais dos seus parceiros do BRICS e dos demais países que assim estão revolucionando seu desenvolvimento.
Revolução Pela Educação – 2
A memória das gentes e a diversidade de suas línguas formam o patrimônio cultural de uma comunidade e sua preservação depende do poder público e de abnegadas pessoas que para isso até se desfazem de patrimônios pessoais.
Sem a tradição desses legados culturais às futuras gerações há o risco de se diluírem no tempo e de se sucumbirem nos túmulos daqueles que não tiveram a quem transferir tais informações. Se não fosse a frivolidade da maioria dessa geração das redes sociais, a internet até poderia bem cumprir esse papel.
No passado 7 de fevereiro, estava a prosear com o ex-superintendente da Policia Federal, Dr. Rubem Patury, no exato momento em que recebeu um telefonema noticiando o falecimento de sua progenitora, Dona Nair Patury. Era detentora de vasto conhecimento sobre a história de Ilhéus. Descrevia com detalhes os acontecimentos. Conhecia todas as tradicionais famílias e era, também, por elas conhecida. Sempre que a encontrava tinha que dedicar bastante tempo para ouvi-la, pois tínhamos afinidade. Foi grande perda.
Conheço também um senhor de 88 bem vividos anos, irrequieto, comunicativo, participativo e, também, grande conhecedor da história de Ilhéus. Quando disse que estava preparando este escrito, insistiu para que não declinasse seu nome. Sempre que nos vemos, há sempre tempo para um dedinho de prosa com ele, quando me conta os causos da terra de Gabriela.
Foi vereador na década de 70, quando, segundo ele, esse cargo era prerrogativa de abnegadas pessoas que se dispusessem a exercê-lo sem remuneração. Os edis daquela época sentiam-se honrados em frequentar o legislativo municipal apenas para defenderem os interesses dos munícipes que os escolhiam pautados no caráter, honradez e capacidade de lhes representar. Bons tempos que não voltam mais!
Ilhéus sempre contou com bons colégios de ensino fundamental e secundário, desde os bons tempos da fartura do cacau. O IME-Instituto Municipal de Ensino, foi celeiro de brilhantes alunos e onde lecionaram excelentes professores, inclusive Milton Santos, ganhador do maior prêmio de Geografia do mundo, equiparado a um Nobel. Em frente ao IME, está o CEAMEV, que lembra o eminente Álvaro de Melo Vieira, de muita importância para os profissionais da contabilidade. Conta, ainda, com o Colégio São Jorge, Instituto Piedade e o Colégio Vitória, no bairro da Conquista, ranqueado como um dos melhores da Bahia.
Na áurea época do cacau faltava a Ilhéus contar com um estabelecimento de ensino superior. Em 19 de maio de 1960 foi autorizado o funcionamento da Faculdade de Direito de Ilhéus, através do Decreto Federal nº. 48.240.
Grande dificuldade surgiu: o município não dispunha de local nem verba para instalação da faculdade. Contou-me aquele senhor que o então prefeito, Henrique Welly Cardoso e Silva, o Henriquinho, recorreu ao Governador da Bahia em busca de recursos. O alcaide de Salvador expulsou o de Ilhéus do gabinete, talvez porque este sempre fora ferrenho defensor do projeto de criação do Estado de Santa Cruz*.
A solução para o impasse foi adquirir o prédio onde hoje funciona a Fundação Cultural de Ilhéus, mediante pagamento em 11 parcelas de 10 mil cruzeiros, avalizadas por Soane Nazaré de Andrade, secretário do Prefeito. Os pagamentos foram honrados pontualmente com recursos oriundos de oito pessoas que bancavam o jogo do bicho, uma das quais, o meu interlocutor. A contravenção era tolerada pelo então Governador da Bahia, Juracy Magalhães.
Outro impasse era fazer a faculdade funcionar. O Prefeito enviou Soane Nazaré a Curitiba, onde adquiriria conhecimento de todos os tramites para fazer
Na década de 80 a faculdade transformou-se na Universidade Estadual de Santa Cruz, instalada numa área de cerca de 700 hectares, doada pelo agropecuarista Manoel Fontes Nabuco. Em reconhecimento pela benemerência, a UESC lhe reverenciou, atribuindo seu nome a um de seus pavilhões. Mais uma vez, a iniciativa privada colaborou e a UESC caminha a largos passos para a excelência no ensino superior.
São constatações de que pessoas verdadeiramente comprometidas e motivadas conseguem vencer difíceis batalhas rumo a um processo revolucionário através da educação.
*A proposta de criação do Estado de Santa Cruz previa a separação da Região Sul da Bahia do atual Estado. Trata-se de uma proposta antiga que, em movimento ondular, sempre vem à baila, talvez porque algum atual ou ex-alcaide sulbaiano, sem cacife para alcançar o Palácio de Ondina, queira fundar um estado só para ele governar. Um acarajé para quem adivinhar onde seria o palácio desse alcaide.




















































