HISTÓRIAS DE UM ILHEENSE – CARNAVAL EM SALVADOR
por Tomé Pacheco

Tomé Pacheco
Em 1973 coloquei na cabeça que queria passar o carnaval em Salvador, porque eu sempre tive vontade e nunca tinha ido. Com pouquíssimo dinheiro, um corte no dorso do pé que levara seis pontos, mesmo assim, enfrentei a para e me mandei.
Pensei então no meu tio Valdivino que tinha um apartamento onde minhas primas ficavam e decidi: “é pra lá que eu vou”. E foi o que fiz. Só que chegando lá por ser época de férias, só estava ocupando o apartamento, o meu irmão Beto que servia na época, à Marinha de Guerra. Quando ele me viu com meu pé enfaixado e mancando, pirou. Então ele perguntou: “Rapaz, o que houve?”. E eu respondi “Vim passar o carnaval aqui”. Ele só faltou me bater e continuou: “Você ficou maluco? São Paulo também tem carnaval!” Então eu respondi: “Tem, mas eu vim passar aqui”. Ele retrucou: “Então se vire porque eu estou indo pro quartel e só saio no final do carnaval”. E na tréplica disse-lhe: “Deixa que eu me viro”
Quando eu abri a geladeira e só vi um tomate, foi aí que a ficha caiu. Então, falei comigo mesmo, “vou à luta”. Peguei um ônibus e fui para o meio da folia. Chegando lá conheci uma garota por nome Alzira que foi minha salvação. Ela me convidou para ir pra sua casa, me arrumou um pierrô, a entrada no Clube Português e, daí em diante foi só alegria.
O carnaval acabou e a passagem de volta custava quinze cruzados, mas como eu estava sem um centavo no bolso o jeito foi falar pra namorada o valor da passagem e que estava duro. Imediatamente ela falou: “Vou te arrumar 20, tá bom?” Eu disse-lhe: “Não, me dê só os 15 da passagem, porque eu não vou mesmo mais lhe pagar e assim o seu prejuízo será menor”. Foi o que ela fez.
Na estrada outro perrengue: 34 horas sem comer nada, só bebendo água. Meus órgãos internos entraram em guerra. O fígado brigando com o estomago, a biles amargando, eu só sei que nunca tinha passado tanta fome na minha vida.
Chegando à república por volta das 6:30 horas da manhã e encontrando a porta do Durval aberta, não titubeei e entrei: “Durval, pelo amor de Deus, me arrume alguma coisa pra comer!”. Ao virar a vista deparo com um pacote de bolacha. Bafei e mandei ver quase de uma vez. A reação de Durval veio logo:“Você, seu banana, vá comer carnaval. Você veio de Salvador ou da guerra?”. Meio sem graça e com a boca cheia de bolacha, sorri…
Em 1975 casei-me com a Neli. Tivemos 3 filhos lindos, maravilhosos: a Priscila, hoje com 33 anos, a Patrícia com 31, e o que considero o meu xodó, Diego, hoje com 26 e que tem mestrado em Educação Física. A Priscila (que eu chamo de Pri) é casada e mãe e dois filhos: a Bárbara de 11 anos e o Davi de 1 ano. Igualmente a Patrícia (a Pati) é mãe de um filho, a Bianca de 9 anos. Enfim eu sou um pai e um avô quase realizado, porque a pessoa que se acha totalmente realizada, está na hora de desencarnar e ir lá pro 2º andar, pois é lá o lugar de pessoas que não têm mais nada a fazer aqui na Terra.
No próximo capítulo, entrarei nas histórias propriamente ditas do Carandiru, aguardem.



























































