por Tomé Pacheco

Tomé Pacheco

Volto a essas minhas Histórias de um Ilheense, agora já como Agente da Penitenciária do Carandiru. Pois é isso. Trabalhei como havia anunciado em capítulo anterior, na Ford de São Bernardo do Campo, indo até fevereiro de 1978, saindo de lá em março. Daí eu prestei concurso para Guarda de Presídio e passei. Para poder trabalhar, eu tive que realizar cursos e instruções diversas, o que veio a acontecer no início de agosto de 1978.

No primeiro dia que fui tomar posse, me deu vontade de urinar e no primeiro banheiro eu entrei. Quando estou lá dentro no bem bom, entram dois detentos e um começa a urinar um a minha esquerda, e o outro a minha direita. Minha urina então começou a sair com dificuldade devido ao medo, e nesse momento um deles comentou pro outro: “Viu que cara folgado esse! Vem logo mijar em nosso banheiro!”. Foi aí que a urina não saiu mais de jeito nenhum, o que me fez guardar o “peru” e me mandar. Saí dali falando pra mim mesmo: “Eu vou me picar daqui e não volto mais”.

Eu era um cara que tinha medo e receio até de passar em frente a uma delegacia, a uma cadeia, mas quando Deus nos reserva alguma coisa em nossa vida, não tem como fugirmos. E tudo isso aconteceu no Pavilhão 5, que era conhecido como o “Pavilhão dos Cuzões” em razão de ser o local em que abrigava todo tipo de “cagoetes”, estupradores, travestis e presos que estavam ameaçados de morte.

Quando tomei posse fui escalado para o Pavilhão 9, que era um pavilhão de triagem, ou seja, quem chegasse no “camburão”, este pavilhão, o 9, era o primeiro pavilhão que o detento visitava. De lá o cara era distribuído de acordo com o delito cometido. Se já tivesse passagem por lá, pelo Carandiru, era encaminhado para o Pavilhão 8, quem estava doente ia para o Pavilhão 4; o que fosse designado para trabalhar ia para o Pavilhão 7; o que era escolhido para fazer serviços na cozinha era encaminhado para o Pavilhão 2. Os Pavilhões 5 e 6 eram os do Setor Administrativo, e alguns detentos pediam para ir pra lá, porque eram pavilhões seguros. Foi nestes pavilhões onde ficava o Luz Vermelha, o Chepa, o Maníaco do Parque entre outros famosos detentos. O Pavilhão 4 era o mais maneiro, que era onde funciona o hospital. Foi aí que trabalhou o Dr. Varella.

No meu primeiro dia de posse ao terminar de receber as instruções do diretor Carabina, e dos colegas antigos, eu fui escaldo para o 3º andar, e como eu não sabia como chegar até lá, perguntei para o colega José de Souza: “Como faço para chegar até o 3º andar?”. Ele simplesmente respondeu: “Procure as escadas que você chega lá”. Eu com as mãos cheias de fichas para contagem dos detentos e um molho de mais ou menos 120 chaves, e outros tantos cadeados, olhei bem pra cara do colega, o medi de cima a baixo e clamei: “Deus, o que estou fazendo neste lugar!”.

Uma das coisas que eu guardei como lição de vida e aprendizagem, foi quando na palestra do diretor Carabina, ele nos falou: “Olhem, vejam bem para quem vocês vão dar um sorriso, pois aqui não são todos que merecem”. Daí em diante eu fui me acostumando e entrei na rotina: às 7 da matina fazíamos a contagem dos detentos de cada cela, e depois cada um funcionário tomava o seu rumo. Uns iam para os patronatos de trabalho, outros ficavam costurando bola, outros iam para o campo, cozinha, departamento administrativo, hospital, faxina etc. Sim, e alguns mexiam com contravenções como o fabrico da Maria Louca, uma cachaça. Tirar a “bronca” com algum devedor, vender drogas, roupas, matérias de higiene pessoal etc., assaltar xadrez, jogar 21, ir para a igreja, eram outros afazeres, se se pode dizer assim, que os detentos tinham no dia a dia do presídio; alguns quando não idealizavam nada iam disputar no “estilete” qual a zona que matava mais. Tinha a galera da Zona Norte contra a Zona Leste, Zona Sul x Zona Oeste e assim nessa disputa, no final matavam e morriam sem a maior cerimônia. Quando acontecia esse conflito de detentos, nós íamos à carceragem em busca de reforços, e ao retorno a carnificina já estava pronta. E sem restar alternativa, o jeito era recolher os corpos e mandá-los para o IML (Instituto Médico Legal). A barra era tão pesada que, passado alguns minutos após o termino do conflito entre as gangues de detentos, alguns inocentes, com medo de alguma represália, se entregavam na carceragem portando estiletes sujos de sangue, se entregando como cúmplices, como réus confessos.

Como a gente sabia que eles não tinham nada a ver com aquilo, simplesmente estavam ali por medo de represália, então levávamos para um lugar reservado, oferecíamos toda a proteção, inclusive a transferência de pavilhão, para que eles falassem a verdade.

Prossegue no próximo capítulo, minha vida no Carandiru.