Revolução Pela Educação – 2
Juventino Ribeiro, contador, Ilhéus-BA
A memória das gentes e a diversidade de suas línguas formam o patrimônio cultural de uma comunidade e sua preservação depende do poder público e de abnegadas pessoas que para isso até se desfazem de patrimônios pessoais.
Sem a tradição desses legados culturais às futuras gerações há o risco de se diluírem no tempo e de se sucumbirem nos túmulos daqueles que não tiveram a quem transferir tais informações. Se não fosse a frivolidade da maioria dessa geração das redes sociais, a internet até poderia bem cumprir esse papel.
No passado 7 de fevereiro, estava a prosear com o ex-superintendente da Policia Federal, Dr. Rubem Patury, no exato momento em que recebeu um telefonema noticiando o falecimento de sua progenitora, Dona Nair Patury. Era detentora de vasto conhecimento sobre a história de Ilhéus. Descrevia com detalhes os acontecimentos. Conhecia todas as tradicionais famílias e era, também, por elas conhecida. Sempre que a encontrava tinha que dedicar bastante tempo para ouvi-la, pois tínhamos afinidade. Foi grande perda.
Conheço também um senhor de 88 bem vividos anos, irrequieto, comunicativo, participativo e, também, grande conhecedor da história de Ilhéus. Quando disse que estava preparando este escrito, insistiu para que não declinasse seu nome. Sempre que nos vemos, há sempre tempo para um dedinho de prosa com ele, quando me conta os causos da terra de Gabriela.
Foi vereador na década de 70, quando, segundo ele, esse cargo era prerrogativa de abnegadas pessoas que se dispusessem a exercê-lo sem remuneração. Os edis daquela época sentiam-se honrados em frequentar o legislativo municipal apenas para defenderem os interesses dos munícipes que os escolhiam pautados no caráter, honradez e capacidade de lhes representar. Bons tempos que não voltam mais!
Ilhéus sempre contou com bons colégios de ensino fundamental e secundário, desde os bons tempos da fartura do cacau. O IME-Instituto Municipal de Ensino, foi celeiro de brilhantes alunos e onde lecionaram excelentes professores, inclusive Milton Santos, ganhador do maior prêmio de Geografia do mundo, equiparado a um Nobel. Em frente ao IME, está o CEAMEV, que lembra o eminente Álvaro de Melo Vieira, de muita importância para os profissionais da contabilidade. Conta, ainda, com o Colégio São Jorge, Instituto Piedade e o Colégio Vitória, no bairro da Conquista, ranqueado como um dos melhores da Bahia.
Na áurea época do cacau faltava a Ilhéus contar com um estabelecimento de ensino superior. Em 19 de maio de 1960 foi autorizado o funcionamento da Faculdade de Direito de Ilhéus, através do Decreto Federal nº. 48.240.
Grande dificuldade surgiu: o município não dispunha de local nem verba para instalação da faculdade. Contou-me aquele senhor que o então prefeito, Henrique Welly Cardoso e Silva, o Henriquinho, recorreu ao Governador da Bahia em busca de recursos. O alcaide de Salvador expulsou o de Ilhéus do gabinete, talvez porque este sempre fora ferrenho defensor do projeto de criação do Estado de Santa Cruz*.
A solução para o impasse foi adquirir o prédio onde hoje funciona a Fundação Cultural de Ilhéus, mediante pagamento em 11 parcelas de 10 mil cruzeiros, avalizadas por Soane Nazaré de Andrade, secretário do Prefeito. Os pagamentos foram honrados pontualmente com recursos oriundos de oito pessoas que bancavam o jogo do bicho, uma das quais, o meu interlocutor. A contravenção era tolerada pelo então Governador da Bahia, Juracy Magalhães.
Outro impasse era fazer a faculdade funcionar. O Prefeito enviou Soane Nazaré a Curitiba, onde adquiriria conhecimento de todos os tramites para fazer
Na década de 80 a faculdade transformou-se na Universidade Estadual de Santa Cruz, instalada numa área de cerca de 700 hectares, doada pelo agropecuarista Manoel Fontes Nabuco. Em reconhecimento pela benemerência, a UESC lhe reverenciou, atribuindo seu nome a um de seus pavilhões. Mais uma vez, a iniciativa privada colaborou e a UESC caminha a largos passos para a excelência no ensino superior.
São constatações de que pessoas verdadeiramente comprometidas e motivadas conseguem vencer difíceis batalhas rumo a um processo revolucionário através da educação.
*A proposta de criação do Estado de Santa Cruz previa a separação da Região Sul da Bahia do atual Estado. Trata-se de uma proposta antiga que, em movimento ondular, sempre vem à baila, talvez porque algum atual ou ex-alcaide sulbaiano, sem cacife para alcançar o Palácio de Ondina, queira fundar um estado só para ele governar. Um acarajé para quem adivinhar onde seria o palácio desse alcaide.




















































