por Juventino Ribeiro

                 A respeito de noticiários veiculados até no exterior, como o caso do artigo publicado no Jornal de Angola, sobre a inflação dos alimentos no Brasil, recorro novamente a Napoleão Bonaparte, sobre quão incomensurável é o poder da imprensa: tenho mais medo de um jornal, por menor que seja, do que de um exército de dez mil soldados, teria afirmado.

                   Sou contador e sei que comentário sobre tal assunto é prerrogativa de economista. O emaranhado das fórmulas explicativas da inflação e a dificuldade de entender o economês, não me permite polemizar nessa seara, mas talvez estejamos diante de factoides de mídias sensacionalistas, como o que estamos vivenciando no atual momento sobre a extinção do Programa Bolsa Família. Como se trata de um programa menina dos olhos do Governo, foi um duro golpe visando a atingir suas pretensões.

            Não morro de amores pelos governantes atuais, mormente após os vergonhosos escândalos de corrupção deflagrados nos últimos tempos. Há quem diga que a oposição está a se alvoroçar rumo à disputa pelo poder e que os governantes, a caminho de doze anos no poder, querem, a qualquer custo, chegar a dezesseis e, quiçá, mais tempo. Assim, doravante teremos que nos acostumar com a beligerância midiática que se avizinha e nos munirmos do devido discernimento para ler nas entrelinhas o verdadeiro e o falso.

            O tomate foi bola da vez, capa de revistas e motivo de chacota até no exterior. Já me esqueci, embora seja recente. Ontem e hoje já se noticiaram quedas acentuadas dos preços dos alimentos, tendo ocorrido deflação de 6,5% nos preços a grosso.

            Há cerca de cinco anos os preços do feijão e da farinha de mandioca, indispensáveis nas mesas da maioria dos brasileiros, tiveram grande alta de preços, passando de 2 reais para atuais 7 a 8 reais o quilo. Outros alimentos subiram, nem tanto. À época, a mídia fez grande alvoroço e o povo brasileiro, passivo como sempre, sente o impacto, mas vai se acostumando e, aos poucos, cai no esquecimento.

            Ensinamentos básicos de economia fazem alusão à lei da oferta e da procura. Maior procura, maiores preços. Diversos fatores têm contribuído para a alta de preços dos componentes básicos da alimentação no Brasil. Tendo a crer que a alta de preços tenha tido origem no aumento do consumo. Além do constante crescimento populacional, o poder de compra do brasileiro alcançou patamares que lhe permitam melhor alimentação e a consumir produtos que antes não faziam parte de sua dieta. Quando meios de produção não acompanham o real aumento de consumo, os preços sobem. Isso é básico em economia.

            O Brasil, de dimensões continentais e de grandes variações climáticas, convive com ocorrências atípicas: enquanto o habitante do nordeste sofre com a maior seca dos últimos sessenta anos, a ver seus rebanhos e plantações perecer, há enchentes e geadas em outras regiões. Há sempre, em algum lugar, condições de produção. Aqui, em se plantando, tudo dá, teria anotado Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, ao descobrir o Brasil.

            Essas variações climáticas permitem culturas diversificadas ao longo de todo ano. É outono no Brasil, época de muitas frutas e de grandes colheitas de grãos. A colheita do feijão que a seca não permitiu vingar na Bahia foi profícua em outras regiões, proporcionando certo equilíbrio na oferta. Mesmo nesse sofrido nordeste encontramos na Bahia e no Ceará regiões de climas propícios à produção agrícola, a exemplo da sofisticada floricultura com alta produtividade durante todo o ano, que permite a esses estados exportar flores até para o exterior.

            É certo que comodities, como soja e milho, principalmente, têm canalizado recursos para sua sofisticada produção em larga escala, muitas vezes com benesses de financiamentos e subsídios governamentais, ofuscando atenção aos pequenos produtores. Sabemos que a agricultura familiar é responsável por levar às nossas mesas a maior parte dos alimentos pelos quais os produtores de comodities não se interessam.

               A aglutinação de pequenos agricultores em associações e cooperativas tem ocorrido em ritmo lento, mas é uma realidade, tende a crescer e a se tornar fator preponderante na oferta de produtos orgânicos a preços acessíveis a um público cada dia está mais consciente sobre os benefícios do consumo responsável.