O PÃO QUE O DIABO AMASSOU
por Juventino Ribeiro
Comer fora deveria ser uma ocasião agradável, que nos proporcionasse momentos de prazer e de fuga da rotina doméstica, com parentes ou amigos em convívio naquele restaurante ou cabana de praia. Há, ainda, aqueles que não fazem fogo em casa e comem fora por necessidade ou por opção.
Uma das regras básicas do ramo de negócio do turismo é surpreender o cliente. O mote, sinta-se em casa, não faz mais sentido, na moderna concepção da arte de bem servir. Agora é ao contrário: se for para se sentir em casa, melhor seria preparar o churrasco, a feijoada, a peixada ou outra comilança de final de semana. Normalmente a todos satisfaz, sem a famosa choradeira na hora de pagar e sem os dissabores do atendimento, geralmente precário.
Tenho uma amiga que é muito exigente e taxativa no quesito comer fora. Galinha caipira, mão de vaca ou mocotó, dentre outras “especialidades da casa”, geralmente só come em casa. Até a ingênua salada crua ela teme comer, pelo risco da má higienização dos legumes e folhas. Exageros à parte. E frescura também. Se assim pensarmos, jamais sairemos de nosso reduto doméstico para comer fora.
Entretanto é uma lástima afirmar que a maioria absoluta dos estabelecimentos gastronômicos, além daqueles que fornecem os gêneros alimentícios para estes, não passaria em exames da Vigilância Sanitária, feitos com o devido rigor. As autoridades sabem e nada fazem sobre as limitações desse serviço de fiscalização, em termos de equipamentos, viaturas e de pessoal qualificado.
Cabe também uma parcela de culpa à ADAB pelos queijos fabricados por estabelecimentos não qualificados e pela carne de procedência duvidosa. Além dos gabinetes e dos postos de fiscalização, uma visita aos estabelecimentos para averiguação da origem seria muito importante, pois o fornecedor tem sempre um jeitinho de vencer obstáculos ao longo de seus percursos.
A maioria absoluta dos manipuladores de alimentos não se submete a exames adequados, admissionais ou periódicos, não tem mínima noção de técnicas de manipulação e de conservação de alimentos, inclusive alguns proprietários, que exercem tais rotinas. Não sabem sobre o efeito devastador das bactérias e dos vírus e a que proporção se multiplicam no organismo humano.
Já constatei estabelecimento com mais de vinte trabalhadores que estariam obrigados a exames para manipulação de alimentos e somente quatro o fizeram. O fiscal da Vigilância Sanitária, displicentemente, não solicitou o livro de registro de empregados para se certificar de quais empregados deveria exigir tais e quais exames.
Já presenciei caso de trabalhador que manipulava pizza com dedos infectados, além do suor que constantemente regava a massa. Quando as unhas começaram cair, demitiu-se.
Houve uma trabalhadora de pousada que se negou veementemente a se submeter aos exames admissionais. Preferia trabalhar sem contrato. Após alguns meses de trabalho internou-se no hospital e decorridos 30 dias foi a óbito. Causa mortis: tuberculose derivada da SIDA, de que era portadora há anos.
Enquanto as inoperantes autoridades sanitárias fazem vista grossa para tamanho perigo, o número de pessoas com diarreia, hepatite, verminose, tuberculose e outras oses aumentam a fila dos já precários atendimentos médicos.



























































