:: ‘Falaê’
Maria Regina Canhos Vicentin em: Mãe – Parceira de Deus
Mais um dia das mães. Nova oportunidade para refletirmos acerca da grandiosidade do papel da mulher-mãe. É impressionante como ao longo dos anos a mulher pode ir modificando tantos aspectos de sua vida, mas conserva ainda o desejo imperioso da maternidade. É provável que Deus tenha inserido tal anseio dentro da alma da mulher, como se fizesse questão de tê-la colaboradora. Realmente, percebemos que a mãe é parceira de Deus num de seus maiores empreendimentos: a criação do ser humano. Isso confere uma importância tão grande à mãe que praticamente todas as pessoas a reverenciam e costumam respeitar seus sentimentos e sua dor, principalmente quando seu filho está em perigo, doente ou morto. Todo mundo tem uma ideia de mãe, simplesmente porque não existe pessoa que tenha nascido neste mundo sem ter sido gestada por uma delas. Boa ou ruim, a mãe é o ventre que abriga o indivíduo até o seu nascimento. Ainda que ela seja cheia de defeitos, é quem nos possibilita conhecer este mundo.
Os que estão vivos e os que estão mortos
Fernando Henrique Cardoso
Os que estão vivos e os que estão mortos – (Fernando Henrique Cardoso)
No fundo estamos condenados ao mistério. As pessoas dizem, eu gostaria de sobreviver além da minha materialidade. Eu não acredito que vá sobreviver, mas, pelo menos na memória dos outros, você sobrevive.
Vivi intensamente isso com a perda da Ruth. Olhando para trás, é claro que ela estava com um problema grave de saúde. Apesar disso fizemos uma viagem longa e fascinante à China. É como se o problema não existisse. A gente sabe que um dia vai morrer e no entanto vive como se fosse eterno.
Depois da morte de Ruth e, mais recentemente, de outros amigos, como Juarez Brandão Lopes e Paulo Renato, eu me habituei a conversar com os que morreram. Não estou delirando. Os mortos queridos estão vivos dentro da gente. A memória que temos deles é real.
À medida que vamos ficando mais velhos, convivemos cada vez mais com a memória. Conversamos com os mortos. Por intermédio da Ruth, passei a lembrar mais dos outros que morreram, dos meus pais, meus avós. Os que morreram e nos foram queridos continuam a nos influenciar. O que não há mais é o contrário. Não podemos mais influenciá-los.
Eu não penso na morte. Sei que ela vem. Já senti a morte de perto. Não em mim. Senti a morte de perto nos meus. E procuro conviver com ela através da memória. Os que se foram continuam na minha memória e eu converso com eles. Minha mãe meu pai, minha avó, minha mulher, meu irmão, meus amigos que se foram são meus referentes íntimos. Tudo isso constitui uma comunidade – posso usar a palavra – espiritual, que transcende o dia a dia.
Então, a morte existe, ela é parte da vida, é angustiante, não se sabe nunca quando ela vai ocorrer. Eu só peço que ela seja indolor. Não sei se será. Ninguém sabe como e quando vai morrer. Pessoalmente, tenho mais medo do sofrimento que leva à morte do que da morte propriamente dita.
Se não é possível ter a pretensão utópica de sobreviver como pessoa física, é possível ter a aspiração de viver na memória, começando por conviver com a memória dos que se foram. Isso tem alguma materialidade? Nenhuma. Isso é científico? Não é. Mas é uma maneira de você acalmar sua angústia existencial.
Maria Regina Canhos Vicentin em: A salvação é individual
Esta semana estava me exercitando na academia de ginástica quando pude acompanhar pela televisão (que fica ligada o tempo todo lá) uma reportagem sobre idosos e as dificuldades que encontram para utilizar o transporte coletivo urbano. Algumas imagens eram realmente de cortar o coração e deixar o telespectador revoltado. Será que aqueles motoristas de ônibus não tiveram pais? Não possuem parentes idosos que se locomovem com dificuldade? Estão imunes à velhice? Esses foram alguns dos meus pensamentos no momento em que assistia àquelas cenas de descaso e indiferença. No finalzinho da reportagem, no entanto, mostraram um ou dois heroicos motoristas que se portaram com paciência e compreensão frente às pessoas com a agilidade comprometida pelo avançado tempo de vida e o desgaste dos anos.
Observar essa reportagem me levou a concluir que a salvação é mesmo individual. Vejam; as pessoas não são iguais simplesmente porque agem de formas diferentes, e uma atitude diferente implica num outro resultado. As nossas ações têm consequências. Seria até estranho deixar de pensar assim. Obviamente, cada um daqueles motoristas será avaliado em separado, ainda que fosse por uma empresa especializada em recursos humanos. O que nos faz pensar que com Deus seria diferente?
Maria Regina Canhos Vicentin em: A pregação da Palavra
Neste último fim de semana, estive ministrando uma palestra na vizinha cidade de Igaraçu do Tietê. A temática versou sobre a mulher e a forma como se deixou escravizar pelos modismos e o culto ao corpo, esquecendo-se de suas qualidades inatas e naturais, entre elas a sensibilidade, a espiritualidade e a meiguice. Em comemoração à semana da atividade física, também ressaltamos a importância da regularidade dos exercícios, como forma de assegurarmos a saúde e a liberação de endorfinas, tão importantes para a nossa sensação de bem estar. Longe de vincular os exercícios a um corpo sarado e perfeito, a finalidade foi destacar a importância de sua ação na flexibilidade corporal, disposição geral, e prevenção de doenças. Afinal, precisamos cuidar do templo do nosso espírito. Ao término da preleção, fui procurada por uma senhora que perguntou se eu era evangélica, pelo fato de haver feito referências a passagens bíblicas durante a minha exposição. Esclareci que era católica, e que considerava que os católicos também precisavam falar.
Maria Regina Canhos Vicentin em: Doutrinas
Dias atrás li um artigo que tratava sobre uma doutrina religiosa e afirmava que ela deveria servir para promover o ser humano e não aprisioná-lo a erros passados. Concordei inteiramente. Fiz um paralelo com o catolicismo, e as mudanças que foram implementadas de uns anos para cá, substituindo a ideia de um Deus castigador pela de um Deus amoroso, um verdadeiro Pai. Penso que a religião; as doutrinas; precisam servir para amparar a humanidade, promovê-la, auxiliá-la mostrando o caminho, a direção, e não precipitando os indivíduos num mar de culpa e remorso, onde as pessoas se sentem paralisadas e diminuídas. O erro existe sim, e faz parte do aprendizado. Não há como assimilar o conteúdo de uma disciplina sem ensaios, sem testes, sem experimentação. A própria experiência religiosa é experimentação. Você se inclina ao insondável e verifica se consegue sentir algo, se algo faz sentido para você. Existe o encontro daquele que anseia com Aquele que é o próprio anseio, porque Dele somos provenientes.
A doutrina precisa amparar, estimular, ensinar, motivar. Erros são naturais. Fracassos fazem parte. Não podemos nos fixar nos erros, nos fracassos, nas falhas. São necessários e fazem parte do aprendizado, mas não podem ser supervalorizados. A evolução do ser humano é que deve ser priorizada. Evolução que se dá cada vez que um ensinamento é assimilado, aprendido. E esse ensinamento só é assimilado quando se traduz numa mudança de vida, numa mudança de olhar, numa mudança de atitude para com o próximo e para consigo mesmo. As coisas velhas vão ficando para trás, e a gente se reveste do “homem novo”; uma nova identidade, pois nos identificamos com outras coisas, coisas melhores.
Maria Regina Canhos Vicentin em: Avenida Brasil
A estreia da nova novela das 21 horas foi marcada por grande expectativa e já mostrou a que veio. Preparem-se os telespectadores para uma viagem por aquilo que o ser humano pode apresentar de pior. A maldade será a tônica da novela e, sinceramente, aconselho os pais a conservarem suas crianças longe do televisor. A atriz principal, Adriana Esteves, adiantou que seu filho caçula não poderá acompanhar a novela, pois não apresenta “discernimento” para tanto. Ciente de que interpretará a pior vilã de sua carreira, a mãe de Vicente (05), Felipe (12) e Agnes (14), ainda tem dúvidas quanto a permitir que os filhos mais velhos acompanhem o seu trabalho em “Avenida Brasil”. O ator José de Abreu, que interpreta “Nilo” também está impressionado com a vileza de seu personagem, que promete chocar o país com suas atrocidades.
Ora, se o próprio elenco da novela está estarrecido diante das barbaridades que terão de encenar, imaginem o que vem por aí. Poupem-se de contaminar a mente e o espírito com o produto de uma novela a serviço do mal. O ator Marcello Novaes, o “Max”, disse que as cenas em que contracena com a pequena Mel Maia (07), a “Rita”, estão sendo especialmente difíceis, pois ele se preocupa em não machucar a criança, enquanto que o diretor, Ricardo Waddington, manda “pegar mesmo”. Evidente que o ator tem procurado ignorar seus princípios morais e valores éticos, e se encontra em “dissonância cognitiva”, sentindo-se forçado a interpretar um personagem com falas e atitudes violentas em relação à criança, situação que desdenha e pessoalmente abomina.
Considero realmente lamentável o interesse do autor, João Emanuel Carneiro, em se promover à custa da barbárie, como fez em “A favorita”, sua novela anterior, sabendo que o nosso povo é tão sofrido, tão influenciável, carente de esperança e bons exemplos. Contaminar a mente e o espírito das pessoas com ideias abjetas e criminosas é promover o mal. Certamente, advirão consequências nefastas tanto para o elenco, que já está sofrendo ao interpretar esses vilões, quanto para o autor e os indivíduos que se deixarem envolver pelos apelos maldosos do folhetim. Sugiro que as pessoas de bem busquem outro entretenimento nesse horário, esclarecendo a seus filhos sobre os riscos e efeitos deletérios dessa programação.
Ao autor, diretor e elenco da novela “Avenida Brasil” gostaria apenas de recomendar a leitura da passagem bíblica que se encontra no capítulo 18, versículos 6 e 7 do Evangelho de São Mateus, e que diz assim: “Caso alguém escandalize um destes pequeninos que creem em mim, melhor será que lhe pendurem ao pescoço uma pesada mó e seja precipitado nas profundezes do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos! Eles são inevitáveis; mas, ai do homem que os causa”. Pelo menos assim, terão consciência de que serão responsabilizados por cada pessoa que, influenciada por esse folhetim, vier a cometer o mal contra si mesmo e contra o seu próximo.
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Maria Regina Canhos Vicentin (e.mail: contato@mariaregina.com.br) é escritora.
Rosana Braga em: Seu amor é do tipo impossível?
Algumas pessoas, e em especial alguns poetas, costumam enxergar algo de muito belo, sublime e até nobre em cultivar um amor do tipo platônico, daquele que precisa ser vivido à distância, somente na fantasia, nos mais profundos recônditos da mente e do coração do tal amante.
Em geral, esse tipo de amor é direcionado a pessoas que, até segunda ordem, são “impossíveis”. Sim, aquelas de quem, por quaisquer razões, não se pode aproximar; seja por estar fisicamente muito distante, seja por representar um alto risco, um perigo iminente. Pode ser o chefe, o namorado da melhor amiga, a mulher do tio e até as ditas celebridades, aquelas que vivem numa realidade muito, muito diferente de quem as ama. Enfim, pessoas comprometidas ou indisponíveis.
Como tema de poesia, convenhamos, dá mesmo “pano pra manga”. Rende. Porém, no dia a dia, se você anda mirando por tempo demais ou, pior, por vezes demais em corações proibidos, é hora de rever suas crenças sobre poder realmente ser feliz no amor.
O fato é que todos nós temos crenças que, em última instância, exercem influência significativa sobre nossas escolhas mais íntimas. Ainda mais quando estão inconscientes, ou seja, quando nem imaginamos que estamos sendo guiados por elas. E quanto menos nos conhecemos, quanto menos observamos nossas ações e a dinâmica que estabelecemos nas relações que vivemos, menos teremos noção de quais crenças estão determinando quem atraímos e quem repelimos!
Maria Regina Canhos Vicentin em: Escrevendo sobre o óbvio

Esta semana, reconheço, escrevo sobre o óbvio. Estranhamente, no entanto,
nem sempre conseguimos constatá-lo. Algumas coisas são certas na vida já
desde o momento em que nascemos. Talvez a maior dessas constatações seja
que, um dia, vamos morrer. Sabemos disso, mas não pensamos sobre isso da
forma como deveríamos. Olhamos para a morte sempre com medo, como se ela
fosse uma intrusa em nossa vida. E, como ficamos com medo, procuramos nem
pensar sobre o que ela tem para nos ensinar. Vou dividir com vocês algumas
reflexões que andei fazendo sobre o tema.
Admito que aguardo com ansiedade a minha aposentadoria. Ainda demora, mas
é vista por mim como a possibilidade de ter uma vida um pouco mais
tranquila e diferente daquela que estou tendo, por trabalhar
excessivamente e me sentir cansada de tantos afazeres. Nesses meus
devaneios, fiz as contas, e cheguei à conclusão que poderia me aposentar
em torno dos cinquenta e cinco anos. Num primeiro momento, tive vontade de
chorar. Faltavam ainda vários anos e eu gostaria que acontecesse logo.
Compreendam como realmente estava me sentindo cansada. Depois, recobrei a
calma e me resignei com a situação, imaginando que o tempo passaria
rápido, como acontece logo que completamos dezoito anos de idade.
Maria Regina Canhos Vicentin em: Não preciso da sua ajuda
“Se ela me internar – quando eu sair de lá – mato ela!” A frase saiu da boca da avó, reproduzindo as palavras do neto que não aceita ser internado para tratamento. Num primeiro momento levei um susto, depois comecei a pensar como seria ser assassinada por alguém que não deseja ser ajudado. Situação cada vez mais possível atualmente; momento em que a maioria das pessoas se ressente da imposição de limites. Vale tudo, desde que seja para mim, obviamente. E você, que se dane! Posso entrar na sua casa, revirar as suas coisas, pegar seus objetos pessoais ou seu dinheiro, e sair tranquilamente, como se nada tivesse acontecido. Posso torrar todo o dinheiro fumando crack ou usando outras drogas. Você não pode me impedir, senão eu mato você! É o quadro atual.
De repente, lembro que com Jesus não foi diferente… Ele queria ajudar e foi morto por isso. Aliás, ao longo da história não foi só ele quem morreu. Várias pessoas bem intencionadas foram assassinadas por quem não aceitava ajuda. Interessante, não é mesmo? O egocentrismo fez inúmeras vítimas no passado e continua fazendo ainda hoje. Vale o que eu quero; o que eu desejo; o que eu busco… Você não vale nada! Não me importo com você, somente comigo mesmo. Deixe-me viver do meu modo, ainda que para eu viver – você precise morrer. Não há como conciliar nossos interesses, já que o meu único interesse é a minha própria satisfação. Sai pra lá, meu irmão!
Nós estamos assistindo esses episódios cotidianos cada vez mais comuns, no entanto, parece que continuamos com os braços cruzados. Afinal, nós não temos nada a ver com isso, não é mesmo? É; até o dia em que acontecer conosco, com os nossos filhos, com os nossos netos… Até o dia em que acontecer na nossa casa… Talvez, seja tarde demais, então. Por isso, precisamos abrir os olhos agora, hoje, e começar a fazer a nossa parte. Como faremos? Conscientizando nossas crianças, educando nossos jovens, amando nossos filhos, respeitando os filhos dos outros, auxiliando os necessitados para que não venham a se tornar os assassinos de amanhã.
Ignorar o problema não irá ajudar na sua solução. Precisamos ensinar e aprender a ceder, esperar, perder. Nem todos podem ganhar sempre. Às vezes, para se conquistar algo precisamos anos de dedicação e trabalho, mas tem quem imagine que pode e deve usurpar do outro todo o seu empenho em uns poucos minutos de ação criminosa. Só uma mudança de mentalidade pode alterar esse quadro vigente. A corrupção não está presente apenas em nossos governantes. Ela é fruto de nossas crenças e valores distorcidos. Somos vítimas de nossa postura “laissez-faire” ao longo dos anos. O cerco está se fechando… Cuidemos para que não sejamos os próximos a serem assassinados!
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Maria Regina Canhos Vicentin (e.mail: contato@mariaregina.com.br) é escritora.
Blog Reinaldo Azevedo
Quando Lula e Jaques Wagner promoviam a baderna na Bahia. Ou: Práticas criminosas
Em julho de 2001, houve uma greve da Polícia Militar na Bahia, então governada pelo PFL. Eu dirigia o site e a revista Primeira Leitura. Critiquei severamente o movimento dos policiais nos termos de sempre nesses casos: “Gente armada não pode parar; quando um policial deixa de trabalhar, o bandido agradece, e o homem comum sofre”. Eu pensava isso sobre a greve da PM baiana em 2001 e penso o mesmo sobre a greve de 2012. Mas e Lula? E Jaques Wagner?
“‘A Polícia Militar pode fazer greve. Minha tese é de que todas as categorias de trabalhadores que são consideradas atividades essenciais só podem ser proibidas de fazer greve se tiverem também salário essencial. Se considero a atividade essencial, mas pago salário mixo, esse cidadão tem direito a fazer greve.”
Quem fala aí é Luiz Inácio Apedeuta da Silva, então pré-candidato à Presidência pelo PT. Seria eleito no ano seguinte para seu primeiro mandato. Naquela greve, sem o morticínio de agora, também houve arrastões, saques etc. Lula, dotado daquela mesma moral e responsabilidades maiúsculas de Eduardo Suplicy tinha o diagnóstico sobre o que estava em curso no Estado. Leiam:
“Acho que, no caso da Bahia, o próprio governo articulou os chamados arrastões para criar pânico na sociedade. Veja, o que o governo tentou vender? A impressão que passava era de que, se não houvesse policial na rua, todo o baiano era bandido. Não é verdade. Os arrastões na Bahia me lembraram os que ocorreram no Rio em 92, quando a Benedita (da Silva, petista e atual vice-governadora do Rio) foi para o segundo turno (nas eleições para a prefeitura). Você percebeu que na época terminaram as eleições e, com isso, acabaram os arrastões? Faz nove anos e nunca mais se falou isso”.
Quanta ligeireza!
Quanta irresponsabilidade!
Quanta vigarice política!
Mas isso não é tudo, não. Um dos grandes apoiadores da greve de 2001 foi o então deputado Jaques Wagner, hoje governador do Estado. Informava o Globo Online de ontem:
Marli Gonçalves em: Os chatos
Numa boa, sou vítima de chatos desde que me entendo por gente. Acho que eles acham que, por eu ser bem-humorada, comigo não sofrem risco de vida ou de se machucarem. Só pode ser. Quanto era pequena, esses seres adoravam me pentelhar apertando minhas bochechas, ou mexendo no meu cabelo, entre as coisas que acho mais chatas neste mundo. Até hoje detesto que me toquem sem autorização. E os chatos – vocês sabem – têm essa característica, gostam de tocar bastante em você, pegar, cutucar, apertar, espremer. Tem o chato tão chato que chega a te prender, imobilizando qualquer tentativa de fuga, segurando seu braço, mão, ombro, até a cabeça em casos extremos. Já pensei em fazer jiu-jitsu, judô, tai-chi, qualquer golpe, para me livrar desses com mais facilidade.
Sou mesmo uma espécie de imã: posso estar linda, passeando, feliz, com fones de ouvido, tralalá, tralalá, tipo numa redoma particular, e o chato lá do outro lado da rua atravessa para vir me chatear, bater no vidro, arrombar meu espaço íntimo, só para… Chatear! O verbo que exercitam mais do que as gostosas levantando aquelas rodelas em academia. Pior quando é chato que eu nem conheço, nem quero conhecer. Ou o chato que sabe que é chato telefonar bem cedo na manhã do domingo, e não só liga como faz a pergunta mais irritante do mundo: “Você estava dormindo?”. E para quê ligou? Para nada. (Antes que algum chato aí diga “porque atende?”, lembro que sou ligada 24 horas por motivos profissionais, como jornalista, e pessoais, como filha de um pai de 94 anos, além de nunca “olhar” antes quem é que está ligando. Tocou, atendo. Claro, se puder.)
Era PT
Sérgio Malbergier
O capitalismo brasileiro só desabrochou, e com ele o Brasil, depois que o presidente Lula e aliados empurraram o Partido dos Trabalhadores para o centro, fechando o consenso nacional em torno da economia de mercado.
Esse grande movimento tem um significado maior do que o compreendemos hoje porque seus desdobramentos ainda não acabaram.
Já está claro, porém, que o PT foi o partido que mais se beneficiou até aqui do sucesso do capitalismo brasileiro. Prova disso foram os números de aprovação recorde de 59% ao final do primeiro ano de mandato de Dilma Rousseff, divulgados esta semana pela Folha, acima da aprovação de Lula de 50% ao final do primeiro ano do segundo mandato.
É um número glorioso para uma presidente que não abraça o populismo (apesar da convivência com Lula e Brizola), aparece muito menos que seu antecessor, tem capacidade muito menor de comunicação e enfrentou uma série de escândalos.
A própria pesquisa Datafolha revela os motivos da aprovação: 46% dos brasileiros acham que economia vai melhorar e só 13%, que ela vai piorar. Mais importante, 60% acham que a sua própria situação financeira vai melhorar.
Esse otimismo econômico mesmo em um ambiente de crise externa revela o quanto o projeto PT é fruto e refém do sucesso das políticas pró-capitalismo que abraçou (que chamava, ainda chama, de “neoliberais”), como o atual processo de privatização dos aeroportos.
Foi o sucesso do capitalismo que deu a Lula e agora dá a Dilma esse patamar de popularidade. Só no ano passado foram criadas 1,9 milhões de vagas formais no Brasil. Em 2010, foram criados 2,5 milhões de novas vagas. São os dois anos de maior criação de empregos formais na série histórica do Ministério do Trabalho. Desde 2003, ano zero do lulopetismo, 14,8 milhões de vagas formais foram criadas no país.
Esse trabalhador segue empregado e quer continuar sua ascensão socioeconômica. Na campanha eleitoral de 2010, ele viu em Dilma a melhor guardiã do modelo econômico que lhe permite vida melhor. Foi muito mais essa aposta na continuidade do modelo econômico do que o carisma pessoal de Lula que elegeu Dilma.
Seu governo agora está calibrando a economia no curto prazo para manter índices de crescimento, emprego e renda robustos o suficiente para garantir a reeleição do PT em 2014. A condução econômica pode ser de curto prazo do lado econômico, mas ela é de longo prazo no lado político.


























































