:: ‘Falaê’
Marli Gonçalves em: Tique-taque, tique-taque… E la nave va
Tic, Tac, Tique-taque, tic, tic, tic . Como tudo muda, mudam também os nossos relógios nesta vida e nos fazem pensar no inspirador tempo, cantado em versos e prosas demoradas. Só não muda o barulho infernal do relógio que não arrancamos do cérebro. Chegou de novo o horário de verão que acontece na primavera. Mas isso apenas nos torna mais lentos, instáveis, diferentes do sincronismo constante e do barulho irritante do tique-taque que nos leva um pouco de vida e viço diariamente. Pare. Ouça. Está lá: tiquetaque, tic-tac.
O tempo não para, mas o governo resolve ano após ano engatar a marcha-a-ré. O tempo só estanca para quem morre ou parte – e que muitas vezes leva junto o tempo de quem ficou contando minutos para ir também. Tudo tão relativo que deixa atônito quem se atreve a pensar sobre ele, limitado, diferente às vezes – dependendo de onde se está – e ao mesmo tempo tão igual dia após dia.
O rapaz vinha andando tranquilo. Talvez tivesse vivido um bom feriado. Teria ele ganho presente do dia das crianças? Que planos fazia a caminho do trabalho? Um segundo e o tempo dele acabou, quando voou aos ares junto com o restaurante que explodiu no Rio de Janeiro esta semana. Vi e sofri. Me arrependo porque a imagem ficou muito gravada pelos meus olhos. Acabei vendo ainda dezenas de outras vezes pela tevê aquela calçada arborizada, da rua tranquila na sua normalidade de mais um dia carioca. O garoto vinha andando decidido para sentar na sua cadeirinha no banco onde trabalhava, camisa branca (terá sido passada cuidadosamente pela sua mãe naquela manhã?) quando voou e explodiu – dizem, pedaços dele e de tudo foram arremessados a mais de 50 metros de distância. Um segundo, dois, três? Quando visivelmente até as árvores se deslocaram pela explosão ele deve ter achado que era terremoto. Qual foi seu último pensamento, teve tempo?
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Maria Regina Canhos Vicentin em: Sem explicação
Dias atrás uma tragédia abalou minha cidade natal. Membro de tradicional família jauense assassinou suas irmãs e se suicidou em seguida. No mesmo dia também faleceu o motorista Rubens, que prestava serviços ao fórum. Ele havia sido assaltado um mês antes. Essas notícias me deixaram consternada. Repentinamente, coloquei-me no lugar dessa mãe que teve três de seus filhos mortos e imaginei a dor mais profunda do mundo. Com 89 anos, certamente recebeu seu mais duro golpe. Por que, meu Deus? Com que finalidade? Rubens havia acabado de se aposentar. Fazia planos de aproveitar seus momentos livres com a esposa, e desfrutarem os anos vindouros com descanso e alguns passeios. Lamentavelmente, não houve tempo para isso. Para que a pressa, Senhor?
Maria Regina Canhos Vicentin em: Luz na Prisão
Há meses estou me dedicando ao meu mais novo empreendimento literário. A obra com o título provisório – Luz na Prisão – é destinada prioritariamente às pessoas que estão encarceradas. A ideia é propiciar a oportunidade de reflexão acerca do que influencia na prática da conduta delitiva e como trilhar outro caminho caso se deseje. Confesso que não está sendo fácil escrever um livro assim. Primeiro, por destinar-se a uma parte da população que costuma não ser olhada com amor, mas com desprezo. Segundo, pela necessidade de fazer algo objetivo e direto, claro a ponto de ser entendido tanto por quem tem instrução como por quem não a possui. Também conciso, pois a maioria das pessoas, convenhamos, não gosta de ler. Precisa atingir o objetivo de deixar o leitor à vontade e, ao mesmo tempo, fazer com que se identifique com as situações ali descritas, para que possa perceber que nada acontece por acaso, e que uma mudança requer, no mínimo, o desejo de fazer diferente.
Marli Gonçalves em: Se os cachorros falassem
Vivo em uma região de São Paulo onde, como diz o meu pai, tem mais cachorros do que gente. Não tem hora. Pode ser de madrugada que você encontra prestativos humanos nas ruas com eles, passeando, farejando, vendo onde depositarão suas necessidades, agora recolhidas em saquinhos que depois viram embrulhinhos pelos cantos. Eles têm todas as cores e tamanhos; são das mais variadas raças, incluindo as raras, super raras e raríssimas, daquelas que não adianta nem perguntar o nome para o dono – você não conhece mesmo. Invariavelmente esses donos empinam o nariz e respondem algo em uma lingua muito mais do que estrangeira, enrolam o “accent”e você vai continuar na mesma. Com cara de hãhã.
Ultimamente também parece desfile de moda. Alguns ficam bonitinhos; outros, verdadeiros palhacinhos, ridículos, mas todo mundo acha “engraçadinho” ver os coitados com sapatinhos, botinhas, capuzes e …jóias! Hora que penso no que eles diriam se pudessem. Como escolheriam, de vingança, as roupas para os seus donos, e o que acham de ser motivo de chacota, certamente, dos outros cachorros.
E as cadelasfashion victims que sofrem mais ainda? No cio as obrigam a andar por aí com fraldinhas e calcinhas rendadas. Já vi várias com unhas das patas pintadas, fora as que ganham bindis, aqueles adereços indianos, no meio da testa, no “terceiro olho”, laços e laçarotes. Se falassem…
Maria Regina Canhos Vicentin em: Mudamos se desejamos
Outro dia, caminhava em direção ao trabalho quando vi de relance alguém que havia coordenado um grupo do qual fiz parte na minha puberdade. Pessoa distinta que pregava a Palavra de forma bonita, mas que com o passar dos anos foi se afastando da Igreja. Também, na mesma semana, ouvi relatos sobre alguém que admirei na juventude, e que mudou completamente de comportamento ao longo da vida, assumindo atitudes diversas daquelas que me inspiraram fascínio e respeito. Tomei conhecimento ainda de alguns fatos praticados por pessoas que tinha em alto conceito, e que me decepcionaram, embora não tenham feito, diga-se de passagem, nada de errado ou grave.
Percebi, assim, que quanto maior a expectativa que temos das pessoas, mais fácil fica nos frustrarmos diante das constatações que a vida traz. Num primeiro momento, tendemos a descrer do ser humano, pois muito esperávamos. Um pouco de reflexão, no entanto, mostra como somos frágeis e vulneráveis em nossas decisões, opções de vida, escolhas. Tantas possibilidades à nossa volta nos levam à indecisão, principalmente se desejamos experimentar tudo ou optar pelo que aparenta ser mais vantajoso. Estou para afirmar que o “melhor” não existe. Ao menos, não na concepção que temos de melhor, pois o “meu melhor” pode diferir do “seu melhor”. As decepções serão muitas, já que somos imperfeitos e falíveis. É inevitável.
Marli Gonçalves em: Nossa primavera particular
Adoro. Fica tudo mais bonito, mais colorido e até mais romântico. Sempre tive a impressão de que a primavera era uma estação para, como diz um amigo, “acasalar muuuitoooo” (ele fala assim, quase como se uivasse).
Lá vem ela, cheia de graça, menina, a primavera. Traz consigo o trocadilho antigo do como vai sua prima. Traz um frio e calor e frio e calor, mais temperados. Traz o canto dos pássaros bem mais forte, mas insinuante e cheio de piadinhos aflitos dos filhotes nos ninhos. Traz invariavelmente o que todos os anos chamam tendência: os florais. Este ano, adianto, o quente da estação serão as estampas “Liberty”. Ah! O que é? Esse é o nome dos floridos dos tecidos, mas os que sejam mais delicados, com florzinhas, folhinhas, borboletinhas, toda sorte de inhas, miniaturas delicadas e que nos dêem ou tragam um ar pueril, campônio, de boa gente, natural. Não precisa morrer de rir, não vou tentar mudar seu estilo só porque a Primavera chegou. Você a recebe como bem entender.
Só que primavera é palavra usada o ano inteiro e nem sempre por causa só do ciclo da natureza e do tempo, embora não deixe de ser também. Primavera é sempre renovação. Seja por aqui, mas ultimamente tem sido muito também por lá, pelo Oriente, pelos exóticos mundos das Arábias, Mil e Uma Noites e ditadores cruéis. Se oriente, rapaz, nós já tivemos muitas primaveras revolucionárias e jamais esquecidas. Sempre é tempo de fazer mais uma, e vai ser boa se for para melhorar, para continuar vivendo, para continuar comemorando, contando e colhendo outras primaveras, igual aqueles bichinhos do Pac-Man, nhec, nhec, nhec, comendo pontinhos, desviando os caminhos dos labirintos para não ser engolido.
Maria Regina Canhos Vicentin em: Sonhos nem sempre são como parecem
Ora mais fáceis ora mais difíceis, os sonhos povoam o imaginário de praticamente todas as pessoas. Buscamos a satisfação de nossos desejos, ainda que no futuro, e a isso damos o nome de planejamento, projeto, sonho. Muitas vezes, demoramos anos para atingir um determinado objetivo, mas saboreamos com contentamento a realização de nossos planos e aspirações. É muito bom quando tudo acontece assim, da forma descrita. A gente sonha, luta e, um dia, alcança, conforme planejado. Ótimo!
Problemas surgem, no entanto, quando aquilo que conquistamos é diferente daquilo que desejamos ou havíamos idealizado. Em certos momentos, presenciamos nossos sonhos se transformarem em pesadelos, por envolverem pessoas que não pensam da mesma forma que nós. Isso porque, normalmente, existem interesses diversos entre os vários indivíduos. Enquanto alguns são amorosos e menos ambiciosos, outros são frios e mais competitivos. Essas e outras características entram em choque quando a concretização de nossos sonhos depende de outras pessoas. O que fazer nessa situação?
Rosana Braga em: O outro tem o direito de não gostar de você!
Frequentemente, vejo pessoas se autodestruindo ou tentando destruir o outro porque não se conformam com o fato de não serem correspondidas. Afirmam insistentemente que “amam” e, em nome deste sentimento, julgam-se dona de toda e qualquer razão, como se qualquer atitude pudesse ser justificada por este sentimento.
Claro que desejamos ser correspondidos quando gostamos de uma pessoa. Óbvio que queremos nos relacionar com ela e creio que seja muito saudável fazermos o melhor que conseguirmos para tentar conquistá-la; mas precisamos considerar que nenhuma investida é garantida.
Faça o que fizer, haja o que houver e ainda assim o outro terá o direito de não querer, não gostar, não conseguir corresponder e oferecer os mesmos sentimentos. Acontece que algumas pessoas simplesmente não aceitam isso. São imaturas; comportam-se feito crianças que esperneiam e fazem birra a fim de conseguir o que querem.
Algumas optam pela autodesvalorização. Diante da recusa do outro, entregam-se às lamentações e não se cansam de repetir que são feias, desinteressantes e não têm sorte na vida. Pisoteiam sua própria auto-estima até realmente ficarem muito menos atraentes do que poderiam ser.
Marli Gonçalves em: Eu vou “não ir”? Eu já fui.
Olha, por favor, não me levem a mal. Não estou querendo criticar ninguém ou mesmo demover ninguém de suas atividades cívicas, físicas, morais, políticas ou de lazer. Mas é que a coisa está ficando meio perdida demais e sem sentido, e a turma anda fazendo tantas manifestações, de tantos tipos, horários, públicos, que está mais é se dispersando. Aí nada acontece e todo mundo fica com a cara de decepção, chorando pelos cantos dos comentários dos sites, xingando-se uns aos outros. E a corrupa correndo solta.
Tive um ataque de preguiça no feriado de 7 de setembro. Tinha grito, marcha, parada, andada, caminhada, passeata, mobilização, passeio, encontro, pulinho, rendez-vous, juntamento, movimentação – de um tudo – na programação. Em São Paulo, o lugar era um só, a Avenida Paulista. Mas os horários, trajes, maquiagens, motivos, idades, eram diferentes. Teve até matinê. Faltou só que tivesse sido lá também o desfile militar, para a coisa ficar mais completa e animada. Ou preta de vez.
Acabou que eu não fui a nenhuma. Vi, de longe, só uma delas, indo bem, fechando o trânsito, tom oficial, comportada, regulamentar, formal, quase burocrática. Foi-se o tempo em que sabíamos e, ao menos, conseguíamos protestar com vontade, força, criatividade e energia. Éramos ouvidos em todo mundo. Sinceramente, das últimas que lembro que deram resultado foram lá nos idos tempos do Collor, com os caras-pintadas. E olha que ali já dependíamos da energia dos estudantes, tão estupefatos estávamos. Movimentação que se preze tem de juntar todo mundo: homens, mulheres, velhos, crianças, pobres, ricos, cachorros, de raça e viralatas, periquitos, parar tudo, se fazer ouvir de verdade.
Opinião: Seu produto pode até ser igual ao do concorrente, mas sua história tem de ser melhor
Eloi Zanetti – Especialista em Marketing e Comunicação Corporativa
A mais recente novidade entre os jovens marqueteiros chama-se story-telling. Como sempre, a geração que chega gosta de “inventar a pólvora” há muito tempo inventada. É para criar relevância, dizem com seriedade. Alguém aí pode me dizer o real significado da palavra relevância? Para sofisticar o assunto e atrair público para suas palestras, inventaram o bonito nome de story-telling – que é nada mais nada menos do que a velha arte de criar e contar histórias. Acredito que alguns desses especialistas em story-telling nunca leram “As Mil e Uma Noites” e devem acreditar que Sherazade seja só um nome de boate. Quiçá sabem quem foi Walter Benjamin, Joseph Campbell ou Homero. Ouvem o galo cantar, não sabem onde e já dão palestras sobre a arte da contação de histórias.
Há muito tempo sabe-se que marketing é a arte de contar histórias. Se uma empresa ou produto não tiver uma boa história para contar, é dever do marqueteiro inventar uma. Assim são as histórias da Harley Davidson, da Ferrari, da Barbie, da Coca-Cola, da Sadia e do Bradesco. Algumas empresas repetem a técnica da narração por décadas e o povo não se cansa de ouvi-las e de repeti-las à exaustão. Não é assim quando seus filhos pedem para você contar sempre a mesma história?
Histórias de empresas serão sempre mais poderosas e terão maior efeito sobre os ouvintes/clientes quando ligadas ao mito fundador dos seus criadores. Isto quer dizer: contar como tudo começou. Steve Jobs, Bill Gates e Mark Zuckerberg viraram roteiros de filmes e não saem da mídia há muito tempo.
Marli Gonçalves em: Entupimentos emocionais
O jeito oriental de aproximação, o olhar baixo, tímido, a voz de borboleta, as mãos mágicas que se estendem, macias, mas decididas, para tocar seu pulso, e auscultá-lo sabe-se lá como – o barulho de um riacho, talvez. Parecido quando a gente põe só a pontinha do pé para ver a temperatura da água, semi-alerta. Um tempo de silêncio que parece tão interminável quanto aquele no qual a cartomante põe as cartas à sua frente e as fica olhando. Agora quem prende a respiração é você, certo de que tudo o que tem ou que lhe acontecerá está ali, na pulsação dos pontos de seu corpo, ou nas tais cartas de desenhos e símbolos coloridos.
Nos dois casos você fica nu, entregue, embora pareça e seja bem melhor mesmo estar nas mãos daquele mestre japonês conhecedor da medicina oriental do que na de algum charlatão ou adivinho. Muita gente procura saber o que o futuro lhe reserva e apenas obtém um enigma, uma pressão e mais dores de cabeça.
Maria Regina Canhos Vicentin em: Oito ou oitenta
Estive refletindo a respeito das mudanças que se efetivaram em nosso país e no comportamento das pessoas de uns anos para cá. Às vezes, tenho a sensação de que houve uma divisão em dois grandes blocos. O dos organizados, responsáveis e trabalhadores; e o dos desleixados, irresponsáveis e desocupados. O segundo parece ser bem maior que o primeiro e, ao que tudo indica, o grupo um carrega o dois nas costas. Bem, alguns dirão que isso sempre foi assim, afinal, não é de hoje que existem as diferenças individuais. Sim, concordo; no entanto, tem crescido dia a dia o número de pessoas pertencentes ao grupo dois. Imagino comigo que o cenário político vigente contribuiu muito para isso, pois ao invés de se “ensinar a pescar” entrega-se o “prato feito”, e sempre à custa dos contribuintes, obrigados a arcar com significativos percentuais nos impostos e tributos.


























































